Viúva, ela de fato parecia. Era uma mulher idosa, como idosa costumam ser as viúvas; vivia sozinha, como é a regra entre muitas viúvas; e, sobretudo, tinha uma aparência triste, desconsolada, uma aparência que inevitavelmente inspirava piedade e que, de novo, não é rara entre as viúvas, excetuando-se as viúvas alegres, claro.
Começamos a sentir pena dela no momento mesmo em que mudou-se para a nossa rua, onde tinha alugado um pequeno apartamento num velho prédio. Pobre dessa mulher, disse meu irmão Márcio, naquela tarde de sábado em que um pequeno caminhão trouxe, para a nova moradia, os seus poucos pertences móveis, a geladeira, o televisor, algumas malas. Dois homens carregavam essas coisas para o apartamento; mas alguns objetos ela mesma fazia questão de levar.
Márcio e eu resolvemos ajudá-la, fomos até ela, apresentamo-nos como vizinhos e dissemos que estávamos à disposição. Mostrou-se muito grata; eu sou a viúva Paulina, disse, estendendo-nos a mão. Pusemos mãos à obra, e a primeira coisa que eu peguei foi uma grande e muito antiga fotografia numa elaborada moldura dourada: um homem de idade, como a viúva, de barba, olhar severo, altaneiro. Não, disse ela, não leve essa foto, deixe que eu mesma faço isso. E explicou, numa voz dolorida:
- É o falecido.
O falecido. Essa expressão ouviríamos muitas vezes, depois disso. Encontrávamos a viúva Paulina com frequência, na rua ou no super, fazendo compras (pouca coisa: era absolutamente frugal, ela). E aí, inevitavelmente falava do falecido, com quem estivera casada por 42 anos. Tratava-se de um capitão do exército, um homem reto, enérgico, corajoso. O casal não tivera filhos, os poucos parentes moravam longe, de modo que competia a ela preservar a memória do marido. Fazia-o com uma dedicação admirável. Estava inclusive escrevendo a sua biografia dele – a mão, num volumoso caderno. De vez em quando convidava-nos a visitá-la e então leu-nos passagens, heróicas passagens, da biografia: como o falecido salvara a vida de um soldado que estava se afogando num rio, como o falecido, à frente de sua tropa, debelara um incêndio que ameaçara destruir uma enorme floresta. Nos trechos culminantes sua voz embargava-se de emoção, seus olhos se enchiam de lágrimas. E explicava:
- Ele era tudo pra mim, meninos. O falecido era tudo para mim.
O falecido. Nunca nos disse como se chamava. E também nunca perguntamos. A verdade é que aquelas histórias nos perturbavam; ouvindo-as, não sabíamos o que dizer, o que fazer. Consolar a viúva Paulina? Mas queria ela ser consolada? Ou queria apenas dar vazão à sua enorme dor? De qualquer modo, ela se mostrava muito grata pelo simples fato de a ouvirmos. E nossos pais nos elogiavam:
- Temos muito orgulho de vocês – dizia minha mãe, a custo contendo as lágrimas.
Lá pelas tantas, contudo, acabamos cansando das lamúrias, dos suspiros, das queixas. Afinal, éramos dois garotos – Márcio tinha 13; eu, 11 – ouvir histórias de viúva não era exatamente o nosso sonho. Em algum momento teríamos de dar o basta.
Esse momento nunca chegou. Um ano depois da mudança, a viúva Paulina morreu. Coisa súbita, infarto provavelmente. A faxineira encontrou-a na cama, olhos fechados, expressão serena – morta. Na parede sobre a cama, o retrato do falecido.
A viúva tinha deixado, com o síndico do prédio, uma espécie de testamento. Suas coisas deveriam ser doadas para um asilo de idosos, com uma exceção: a foto do falecido, que deveria ser queimada.
Queimada? Quando o síndico nos contou, ficamos assombrados. O que poderia significar aquilo? O que pretenderia a viúva? O que a motivava? Ciúmes? Algum secreto ressentimento?
O síndico não estava muito interessado em esclarecer essa dúvida. Entregando-nos a foto (sem a soberba moldura, ricamente decorada, e com a qual ele decidira ficar, como retribuição a seus serviços, pediu-nos que déssemos fim naquilo.
Saímos dali, fomos para casa. Em nosso quarto, ficamos sentados nas camas, em silêncio.
- Não sei você – disse Márcio – mas eu não tenho coragem de queimar essa foto.
Eu também não tinha coragem para fazer aquilo. Guardamos a foto, dobrada, num armário. Um ano se passou e uma tarde, quando voltei para casa, encontrei Márcio agitadíssimo.
- Você não imagina o que eu descobri – foi logo dizendo, e mostrou-me uma revista que tirara da biblioteca da escola, uma revista que ele folheara por acaso, inteiramente por acaso.
Na página aberta estava uma foto. Igual, igualzinha àquela que tínhamos guardado.
- O falecido! – gritei – O marido da viúva Paulina!
Márcio abanou a cabeça, suspirando:
- Não, mano, esse aí não é o falecido. Não era o marido da viúva.
Havia, junto à foto, uma biografia. De fato, aquele homem era capitão do exército. Mas nunca viera ao sul, onde vivíamos. Nascera e passara toda a sua vida em Fortaleza, onde casara e tivera filhos. Sim, realizara coisas heróicas: salvara um soldado que se afogava e, à frente de sua tropa, combatera o fogo que ameaçara uma floresta. Na biografia figurava o nome da esposa e dos três filhos. Mas nenhuma menção era feita à viúva Paulina.
- Mas como...? – comecei a perguntar e nem cheguei a concluir a frase: Márcio já abanava a cabeça, desalentado. Ele não tinha resposta. Nem ele e nem ninguém.
Naquele mesmo dia queimamos a foto. Como era de imaginar, as chamas consumiram-na rapidamente. Mas as nossas dúvidas permaneceriam para sempre.
*Moacyr Scliar foi médico e escritor, autor dos romances Manual da Paixão Solitária e A Mulher que Escreveu a Bíblia, entre outros.

Esse foi o último conto que li de Scliar, ironicamente tem esse título; ele, o escritor imortal da ABL, deixou um vasto acervo do qual não li nem a terça parte. Gosto muito dos seus contos, muitos deles marcados pela ironia, essa mescla de bom humor e crítica social. Mais um, entre tantos, imortal. Mario Quintana, Josué Guimarães, Moacyr Scliar,... Minha homenagem!
ResponderExcluirTive o prazer de vê-lo pessoalmente em um Congresso, há uns 7 ou 10 anos atrás... foi aí q conheci esse grande escritor, a partir de então comecei a ler seus livros e tornei-me sua fã! Ele merece sim todas as homenagens!
ResponderExcluirLeonildes Colaço