Tem certas coisas que nos contam e com o passar do tempo não se sabe se era sonho, se era verdade ou se a verdade lembrada corresponde realmente a verdade... A verdade é que essa lembrança encontra-se ofuscada nos detalhes, mas é de inteira certeza que aconteceu, não bem assim, mas que aconteceu, aconteceu.
Quando era criança, em Porto Alegre, meu pai trabalhava no Caldas Júnior, na época o maior jornal gaúcho; a Companhia Jornalística Caldas Júnior chegava a imprimir quatro jornais diários (Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Tarde Final, todos tablóides, e o calhamaço do Correio do Povo) . E eu, não muito regularmente, costumava frequentar a redação do jornal, para ver o movimento, andar de elevador (uma novidade) e encher o saco do pessoal, colegas de papai, o que muito o contrariava. Nessas idas e vindas, ouvia histórias. Acontecia que o poeta Mario Quintana morava a algumas quadras do Jornal, no famoso Hotel Magestic, na Rua da Praia (Rua dos Andradas).
Uma dessas histórias dava conta da reconhecida humildade do poeta e a história é essa:
Certa vez, meu pai, ou um amigo dele ou nem um nem outro ao chegar nas proximidades da redação encontrou Quintana sentado no cordão da calçada. Ao seu lado, em pé, de vassourão em punho, um gari do DMLU. A cena, no mínimo curiosa, talvez tragicômica, chamava a atenção dos que por ali passavam. Primeiro por verem o famoso poeta, sentado na calçada, a escutar o gari, que estava em pé. Depois, pelo fato do gari estar chorando copiosamente. Disse a pessoa que me contou essa passagem, meu pai talvez, que o rapaz contava ao poeta sobre a recente traição da mulher. Quintana, atento ao relato, pacientemente, tentava consolar o gari... Creiam, é verdade e dou fé!

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