Vinte e seis de março de 2011 seria um dia comum não fosse a incomum sensação de bem-estar. Mas pensando bem, é, é comum em sua forma ordinária; a casa aceitavelmente limpa, silêncio divinal, temperatura amena, chuva fina lá fora, café requentado, por preguiça; tudo assim simples, simplesmente bom, sem arroubos de felicidade, sem melancolias de reminiscências passadas. Seria como pensam alguns “a felicidade moderada”, tépida: uma poltrona, um romance de José de Alencar, o Aurélio, necessário Aurélio quando me reúno com o Dr. Alencar...
Desde ontem tenho convivido com essa calma longe de ser tediosa. Uma santa paz. É verdade que tem um felzinho deixado por Letícia, um botãozinho ligado no celular, na internet, nas coisas cotidianas que me trazem, vez ou outra, à sua lembrança.
– Aonde andará Maria Rita? – penso, mas logo a razão manda que mude de trilha sonora.
Parece estranho que tanta normalidade me dê vontade de escrever. É que nessa cabeçorra borbulhante de constante angústia, um Dia de Paz merece essa celebração, sem rebuscos, sem grandes alardes, do jeito que a calmaria gosta com direito a uma princesa, mas modesta, de olhar bondoso e de deleitosa pele de alabastro...
Longe de ser uma alegria fausta e de figurar no galarim das bem-aventuranças, a paz modesta que esse dia trouxe não tem preço; seu valor singular e humilde fez com que sequer percebesse a ausência dos raios fulvos do sol. Isso que dá ler José de Alencar... Quem leu Senhora, sabe da beleza de Aurélia e da necessidade do Aurélio. Não há nada de singelo na figura alva e estreme da personagem, entretanto, não se compara a que há de vir, mais a frente; a primeira é fruto da imaginação, tem o talhe majestoso e inebriante e está sempre acompanhada de uma rigidez moral impecável. A nobre senhora desfila pelos bailes da Corte levando consigo os olhares invejosos da fina-flor da sociedade carioca do Século XIX. A que há de vir, cheia de encantos não menos fidalgos, sorriu pra mim sem que me visse, fez com que, mesmo na impostura do que digo, esquecesse por momentos de Letícia. Ao bem da verdade olhava-a na telinha e pensava: Por que não dar àquela, que disse falsamente esquecer, os olhares brilhantes de admiração abstraídos dessa que há de vir? Esse é o preço final de um relacionamento mal-acabado e olha que nem dá para usar meu Mastercard... Mas o que interessa é que, mais uma vez, essa paz que sinto não tem preço.
Sejamos honestos: se não notaram, escrevo para Letícia. Não consigo deixar de escrever. O rancor vai e volta, é nauseante. A vida toda, a que se resume à Letícia, tudo que fiz foi com ela ou para ela, logicamente tudo que escrevi. Milhares e milhares de palavras jogadas como pérolas aos porcos. Em um mundo onde as pessoas cada vez mais se dedicam a si mesmas, não entendo como alguém conseguiu ser indiferente ao que escrevi, ao supra-sumo poético da filantropia. Letícia só não foi indiferente ao que escrevi à outra. Já que o leitor sabe que esta página desse diário de um dia só não é dedicado a si, melhor é fingir que sim. E assim matarmos a curiosidade de saber aonde isso vai dar e quem é a que há de vir...
Ontem descobri que amo Juliette Binoche. Nem sabia que a amava quando assisti à Perdas e Danos , com o magistral Jeremy Irons. É que naquela época a Juliette era mais carnal do que propriamente uma musa. Deixe-me explicar: Tem esse choque na alma masculina de um poeta, esse paradoxo entre sexo e a delicadeza do amor. Sua musa não pensa em sexo e, quando pensa, o faz por um amor lancinante - violinos ao fundo, pétalas de rosas ao chão e alguém charmoso como eu em seus braços desnudos, alvos, cândidos e puros -. Então, à época, não vi a atriz francesa e sim as cenas impudicas protagonizadas com o ator britânico. Quase vinte anos se passaram e ela, mais madura, enterneceu-me com aqueles olhinhos miúdos pedindo para serem adorados. Ah, querida Juliette, se soubesses que noite passei deitado em minha cama, vendo-a na televisão... Não pensem bobagem. O filme era uma comédia romântica com um ator comediante, o Steve Carrel, “Eu, meu irmão e nossa namorada”, uma película sem grandes pretensões e consequências não fosse a história do cara que se apaixona pela namorada do irmão e essa namorada era, sem mais nem menos, ela, a Juliette que, extrapolando, poderia bem ter influenciado Shakespeare se tivesse vivido na Inglaterra do Século XVI. Romeu e Juliette (agora peguei pesado). Esqueçam esse parágrafo. Ponto, nova linha.
Como não tenho diário e queria registrar esse dia e contar sobre a minha novíssima paixão, fui obrigado a criar um e a encerrá-lo de prima já que não tenho saco pra escrever diariamente sobre as coisas “ordinárias” que acontecem em minha patética vida. Ah, pra quem quiser também se apaixonar pela Juliette tem também um bom filme, francês, chamado Paris; ela está menos carismática nele, mas é ela, é ela, além de ser um belo passeio pela capital francesa e de escutá-la em sua língua natal que a torna ainda mais sedutora. O que estou eu fazendo? A filmografia dela é extensa, O Paciente Inglês, et cetera...
- Juju, je vous aime, mon amour!!!
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