quarta-feira, 13 de junho de 2012

UM SUJEITO INDETERMINADO


AULA DE PORTUGUÊS

A linguagem na ponta da língua, tão fácil de falar e de entender.
A linguagem na superfície estrelada de letras sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática esquipáticas atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


         Dizem que, quando se apela a um sujeito indeterminado, o sujeito é o próprio. Mas por necessidade de anonimato ou timidez ou mesmo covardia, o distinto se esconde nas mil e uma oportunidades que a Língua nos dá. Seria correto afirmar também que essas indeterminações do sujeito estão entre os temas preferidos que, dizem, brincam os professores de português amantes da gramática quando estão entediados. Sendo mais específico ainda, valem-se dos devaneios da sintaxe para mostrar que, além de dominarem as regras gramaticais, dominam também os desdobramentos das orações. Loucura maior ainda é não saber se a frase “Dizem que, quando se apela a...” tem um sujeito oculto, mas aí seria determinado, ou o sujeito é indeterminado ou ainda se a oração não tem sujeito. Vai alguém se sujeitar a isso... Contudo, tem gente que estuda e entende do assunto e sai por aí se ufanando. Tem gosto pra tudo nessa vida... Analogamente é o que fazem alguns músicos, cansados das notas mais simples e das estruturas musicais comportadinhas, abusam das dissonantes e torturam os meros mortais com suas improvisações por puro exibicionismo, a exemplo do jazzistas. Bem, deve ter gente à beça querendo a minha cabeça. Só falta falar mal dos muçulmanos e to ferrado de vez...


Mas vou esclarecer: Tenho verdadeira ojeriza à análise sintática. Já fico todo enrolado com o uso da crase, dos porquês, das concordâncias verbais e ainda tenho que lidar com isso, com as combinações de ordenação, dependência e concordância entre as palavras (copiei de uma gramática a procura de uma luz, mas a treva ficou ainda maior e lembrei melhor o que queria dizer com ojeriza). Continuando a explicação: Perdi um ano todo da minha vida (o ano era 1976) porque (junto, segundo a regra) não consegui colocar na cachola a tal da Análise Sintática. Bom, a indeterminação do sujeito faz parte da análise sintática, mas também saber se ele é ou não determinado é tão inútil quanto saber quantos grãos de arroz consumi no almoço. A função da Língua não é comunicar? Que serventia tem saber ainda mais, esmiuçar a frase, dar nomes aos que já nome tem, ou seja, adjetivar pedaço por pedaço uma oração? Fará isso com que alguém escreva, ou se comunique, melhor ou pior? Fiz essas perguntas em 76, sorte que para mim mesmo e pra professora Gládis que teve seu Chevette 75 rosa depredado por mim (foram só dois pneus furados). Sem saber por que, repeti a sexta série e não peguei nem exame, rodei por média. Naquela época andava empolgado com a matemática e física, queria ser matemático ou físico (óbvio), quem sabe engenheiro. E o tal Portuga me dizendo“pois, pois”...
Não é necessário “analisar” o que se passava nessa cabeçorra; achava infinitamente mais inútil o que qualifico hoje como inútil, um conhecimento que só encontra utilidade na cabeça dos exibidos e entediados de plantão, como um músico indo e vindo nas escalas musicais sem “tocar nada”.
- Toca uma música, pombas! E o cara faz que não é com ele...
Depois meu trauma esvaneceu-se, desiludi-me com as “exatas”, me apaixonei pela língua pátria e comecei a escrever; só não escrevo melhor porque continuo achando que essa coisa de “análise” é coisa pra maluco. Até o Drummond concorda comigo!

Abril / 2011.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O PODER DA LITERATURA

José Castello

Em um século dominado pelo virtual e pelo instantâneo, que poder resta à
literatura? Ao contrário das imagens, que nos jogam para a fora e para as superfícies, a literatura nos joga para dentro. Ao contrário da realidade virtual, que é compartilhada e se baseia na interação, a literatura é um ato solitário, nos nos aprisiona na introspecção.
Ao contrário do mundo instantâneo em que vivemos, dominado pelo "tempo real" e pela rapidez, a literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo, ignora o imediato e as circunstâncias.
Vivemos em um mundo dominado pelas respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se limite a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura, portanto, parece caminhar na contramão do contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se reproduz e acelera, a literatura se contrai, pendindo que paremos para um mergulho "sem resultados" em nosso próprio interior. Sim: a literatura - no sentido prático - é inútil. Mas ela apenas parece inútil.
A literatura não serve para nada - é o que se pensa. A indústria editorial tende a reduzi-la a um entretenimento para a beira de piscinas e as salas de espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade _ em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva _ transforma a literatura em uma "especialidade", destinada apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua potência. Tanto quando é vista como "distração", quanto quando é vista como "objeto de estudos", a literatura perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e desestabilizar a existência.
Contudo, desde os gregos, a literatura conserva um poder que não é de mais ninguém. Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso espírito. Somos seres "normais", como nos orgulhamos de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões. Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo. Acreditamos que somos donos de nós mesmos!
Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice _e você verá que rombo se abre em seu espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que - a literatura desmascara isso - não passa de ilusão. A "realidade " é apenas um pacto que fazmos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.
É nas frestas do real, como uma erva daninha, que a literatura nasce. A literatura não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas, desagradáveis e perturbadoras. Leia "Crime e Castigo", "O Castelo", o "Livro do Desassossego", ou "A Paixão segundo GH". Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem.
A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas, então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem mo poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia.
A literatura não tem o poder dos mísseis, dos exércitos e das grandes redes de informação. Seu poder é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não para fora, ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da leitura, que escândalos, que estragos, mas também que descobertas e que surpresas ela pode deflagrar!
Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura.

*José Guimarães Castello Branco é um escritor, jornalista e crítico literário brasileiro.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Josué Guimarães no Palavra Escrita

Recentemente admiti que tenho um medo louco de morrer sozinho e anônimo. Mas como a companheira do medo é a covardia, revelei a fobia para apenas três amigos, distintos e, convenientemente, distantes. Esse medo, creio eu, nasceu comigo. E formou-se na imagem de um dos poucos romances que li ao final da década de 80. Como já disse em outras publicações, sempre fui e sempre serei um leitor preguiçoso e afoito. Se tiver em mãos um resumo, lá vou eu por esse atalho. Se ainda usasse o tempo que sobra para mais leitura, ainda vá. Mas ganho tempo ali para ficar de papo pro ar pensando a morte das bezerras. Exceto quando o romance me pega pelas fraquezas que tenho: o amor em sua face estritamente romanesca e os medos. Camilo Mortágua pegou-me pelo medo. Não quero aqui depreciar a obra de Josué Guimarães alegando um motivo tão fútil; o romance é excelente. A história ainda acontece no bairro onde morava e os locais descritos no enredo são os mesmos que conheci durante minha infância. O resumo do romance está logo abaixo para aqueles que quiserem lê-lo, cabe explicar contudo que Mortágua era um velho e morava em uma pensão no bairro Azenha, em Porto Alegre. Frequentava o cinema do bairro (Roma), onde vê, projetado na tela, a história de sua família. E lá, quando o filme de sua vida acaba, acaba também a sua vida. Onde entra a minha fobia? Na descrição precisa do quarto de pensão onde morava, banheiro no corredor, rotina diária de tomar café no quarto, dar as migalhas de pão aos pardais que frequentavam sua janela que tinha como vista os fundos dos edifícios vizinhos. Para dizer a verdade, talvez haja aqui alguns equívocos nos detalhes que possa ter adicionado ao longo dos anos, coisas emprestadas de outros romances, coisas criadas sem ter-me dado conta. Mas a razão de ter eleito esse romance para materializar meu medo está estampada em Camilo Mortágua. E por causa dele, hoje quem não conhecia, passa a saber da existência de um dos romances mais importantes da literatura gaúcha escrito pelo saudoso Josué.
CAMILO MORTÁGUA
(Resumo do Livro)

Romance publicado em 1980, Camilo Mortágua representa, na obra de Josué Guimarães,a culminância de uma trajetória e, ao mesmo tempo, o retrospecto dos resultados alcançados. A incorporação do trajeto histórico do Estado coincide com a evolução da intriga, sobretudo com a biografia do herói que dá nome à obra. Nascido ao final do século 19, o protagonista vem a falecer na primeira semana de abril de 1964. Com isto, o autor introduz no fluxo narrativa setenta anos da história sul-rio-grandense; e, ainda que a família Mortágua, indiferente passe ao largo dos fenômenos externos, emergem ao fundo as notícias relativas às guerras européias, revoluções brasileiras, o suicídio de Vargas, enfim, os fatos mais marcantes do século 20, misturados a trivialidades domésticas, mudanças nas modas, novos costumes, etc.

Assim sendo, se a história não é o eixo que suporta o transcurso dos acontecimentos, ela ali está, e sua fusão a fatos miúdos do cotidiano, porém igualmente relevantes segundo o modus vivendi dos Mortágua, reforça a evidência de que o alheamento crescente desses significa seu paulatino deslocamento do poder - econômico e social. Os setenta anos ocupados pela biografia de Camilo correspondem ao processo de desagregação da classe dominante sulina de extração rural. Transferidos para um centro urbano mais desenvolvido, a dilapidação das propriedades dos Mortágua deve-se, de um lado,, à sua leviandade e falta de tino gerencial; em outras palavras, decorre de sua incapacidade de adaptação ao novo cenário, em que avulta a mentalidade empresarial burguesa. De outro lado, são os acontecimentos históricos que empurram o País na direção da atividade mercantil e industrial e isto, a família, envolvida com seus amores e culpas, doenças e mortes sucessivas, não pode alcançar e compreender. O romance se enxerta à temática da decadência. Camilo Mortágua, o protagonista, revê a história de sua vida ao ir ao cinema. Na tela, em vez de Cleópatra, a Rainha de César, o filme mostra a trajetória da decadência da família de Camilo. Eis o recurso narrativo utilizado pelo escritor.

Como contexto histórico, Josué utiliza os sofridos acontecimentos do golpe de 64. A história se passa em Porto Alegre, recuperando o bairro da Azenha, a avenida Independência, o parque Farroupilha, a avenida Osvaldo Aranha, a avenida João Pessoa, a Faculdade de Direito, a Santa Casa de Misericórdia, a Igreja da Conceição, etc. Nascido ao final do século XIX, Camilo Mortágua morre na primeira semana de abril de 1964, fornecendo as coordenadas temporais que facultam a introdução, no fluxo narrativo, de setenta anos da história sulina. Os setenta anos de Camilo assentam-se numa seqüência narrativa dividida entre a moldura - os cinco primeiros dias do mês de abril de 1964, durante os quais ocorrem simultaneamente o golpe político e militar contra o governo constituído e a revisão da biografia de Camilo - e a intriga propriamente dita. Esta apresenta cronologicamente a vida do herói, cindida em três fases: a infância e juventude, quando a família vive seu apogeu irresponsável, na primeira quadra do século; a maturidade, durante a qual ele restaura o poderio econômico do clã através da incursão no comércio e indústria porto-alegrenses; a velhice, quando ocorre a decadência final, já na segunda metade do século.

Estes setenta anos, que explicitam os temas descritos, mostram-se, no decorrer do relato, embutidos em três noites, de modo que, na rapidez do écran, Camilo assiste à sucessiva e galopante desagregação de sua existência e de sua família, o que culmina numa morte inglória e quase anônima, na escuridão de um cinema de bairro. Em outras palavras, todo o largo espectro da vida do herói cabe inteiramente na semana de abril, durante a qual se dão o golpe militar e a consolidação, no poder público, de seus líderes. Camilo, mais uma vez, mantém-se alheio ao evento histórico, mas isso não significa que não faça a parte dele. Pelo contrário, como se encaixa em seu começo, acaba por imprimir-se neste princípio, vindo a demonstrar como o movimento serviu para reavivar seres como ele, para a seguir, acelerar seu passamento. Este fato é que dá sentido à moldura do romance, sem o qual não se faria a transferência para o presente, assinalado este pela continuidade dos acontecimentos desencadeados na semana em que é morto o protagonista.

Situando a narrativa no período crucial em que se inaugura uma nova época da história nacional, o escritor o traduz como um rito de passagem, que exige, para sua efetivação, um ato propiciatório - a morte de Camilo. Por isso, condensa nele toda uma aventura humana fadada ao sacrifício e revela a oportunidade de sua consumação. Nesta medida, se o livro se propõe a reconstituir um passado para diagnosticar a deterioração gradual de um grupo que exerceu um domínio inquestionável no Sul, ajustando as peculiaridades do romance histórico à inclinação temática da produção literária de Josué Guimarães, ele ainda se projeta para a atualidade do leitor, lançando-lhe a indagação, sempre relevante, a respeito da permanência ou modificação das circunstâncias que suscitaram a imolação de Camilo Mortágua, no momento em que nada mais tinha a oferecer à existência.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A INACÇÃO CONSOLA TUDO

Fernando Pessoa


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 221.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NÃO USEM O NOME DE PESSOA EM VÃO

Fernando Pessoa

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.





Certo dia me mandaram uma mensagem adornada com o primeiro verso da Autopsicografia. Havia tempo que estava por lembrar o padrinho do blog através de uma publicação, mas não queria nem o faria por um motivo tão frívolo. Mas calhou que não sou de deixar barato. Neste dia, bateu-me à porta (e não era o Corvo de Poe) uma transcrição, como já disse, do primeiro verso dela com o intuito preconcebido de me chamar de fingido. Não que não o seja vez ou outra. Faz parte do barro do Divino Oleiro, criador das criaturas, os defeitos de caráter, um dos dissabores do livre arbítrio. Entre estes, a arte de dissimular! Então sei também fingir. Mas não é algo que faça com frequência e nem esse ardil me vem à ideia muito constantemente. No caso, que estou cá a enrolar, não "vinha ao caso" usá-la, como disse, frivolamente, ou melhor, erroneamente, de forma vil e vã a "criação" do padrinho; um sacrilégio e, como tal, convinha esta reação. Bem, tendo já introduzido, vamos à dissertação:
Em um primeiro lugar, Pessoa não chamou os poetas de fingidores, falsos, dissimuladores, enganadores. O poeta lusitano mais ilustre, depois de Camões, chamou primeiramente para sí o adjetivo mal empregado na intenção de atingir-me. Senão, a poesia teria outro título. E ao se autopsicografar, não faria por bem se auto-ofender. Assim, em uma primeira vista, "o poeta é um fingidor" quis dizer outra coisa, que está a vagar na bruma metafórica onde mora a poesia. E, como a poesia é uma figura espacial (aqui vai um agrado aos matemáticos que certamente não leem blogs sobre literatura), a dita cuja pode ser analisada por qualquer uma de suas "arestas", menos por essa fria, seca e debochada, visão, que nem visão é, pois pegou o verso e tascou o que dizia literalmente na face deste que vos posta essa pérola dissertativa. É como ler uma poesia intitulada "ladrão de corações" e mandá-la pra Brasília afim de ofender os distintos parlamentares. Ficou claro pra vocês?
Bem, então, posto isso, vou me aventurar a querer interpretar o que Pessoa escreveu. Como disse, a coisa tem mil e uma faces, mil e uma interpretações. Vamos à minha...

O poeta sente. E sente pra dedéu. Sente imensamente. Faz parte da sua natureza. E essa hipersensibilidade faz com que viaje nas aventuras e desventuras das sensações vividas. Mal começa a viagem e sai à cata de uma folha de papel para transformá-la em poesia. Por vezes, coloca-se no lugar de observador; vê o sofrimento alheio e se transmuta, passando a viver a sensação de outrem. "Finge" sentir, mas finge tão ardentemente, que acaba por sentir a dor que não é sua. E ainda tem a dor que ele realmente sente. As dores do mundo, as decepções, os amores perdidos, as ilusões desfeitas. Não é raro o poeta que foge. Sentimento que é seu, sentimento que não é seu, e a cabeça embaralha que chega a duvidar se a dor é sua ou a pegou emprestada. Vira um camaleão de sensações. No afã de expressar-se, idealiza sua própria dor ao limite de fingir que é dor a dor que deveras sente. E daí vem o verso... Pode não ser nada disso, até porque já estou embaralhado com esse verso que parece mais uma pegadinha. Mas, uma coisa tenho certeza. Ele não chamou a "categoria" de fingida, nem eu sou fingido porque me aventuro a escrever versos. O resto dessa ladainha pode ser, pode não ser... Mas, voltando, em meio a esse mixer de emoções ele escreve:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


Felizmente usaram apenas o primeiro verso. Então fico por aqui. Se nada disso lhes parece ter sentido, saboreiem os versos do Dindo. E tenho dito!

Antes, porém, queria lembrar de um momento muito interessante acontecido quando li pela primeira vez Autopsicografia. Por ironia (acho que de irônico se poderia chamar Pessoa, não de fingido, nem eu...) há muitos anos, em Brusque, existia um lugar chamado Núcleo de Difusão Cultural, um espaço aberto às artes e, entre elas, a poesia. Andava muito por lá e lá conheci uma das 4 seguidoras desse blog, Nane Maurici, e também a mulher que mais amei na vida (e que ainda amo). Se minha memória não falha, as duas estavam, certa noite presentes em um sarau literário ou coisa que o valha. Assistia embevecido à interpretação de O Corvo, de Edgar Allan Poe, magicamente interpretado por um ator de Blumenau. Ao lado de onde estava sentado havia uma caixa e dentro dela mil papeizinhos cada qual com uma poesia escrita nele. Podia-se botar a mão na caixa e tirar um papelote lá de dentro. Peguei Autopsicografia. Li. Guardei-o no bolso e levei para casa. O que tem a ver tudo isso? A pessoa que mais amei na vida e que estava ao meu lado naquele longínquo dia, é a mesma que me presenteou com o primeiro verso da poesia do padrinho na mensagem que gerou tudo isso.... Mas, guardo essa noite como uma das noites mais belas que passei naquela cidade a ponto de descrevê-la, a noite, em seus mais íntimos detalhes...
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sábado, 15 de outubro de 2011

Tempos de Paz - Monólogo de Segismundo



"Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus, para entender que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci, eu já entendo o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor, porque o crime maior do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados, só queria saber que outros crimes cometi contra Vós além do crime de nascer. Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas, ramalhete alado quando veloz cortando salões aéreos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e, com a pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade?
Nasce um peixe, aborto de ovas e Iodo e, feito um barco de escamas sobre as ondas, ele gira, gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?
Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente, entre flores se esconde onde músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão, um vulcão qual o Etna quisera arrancar do peito, pedaços do coração.
Que lei, justiça ou razão pôde recusar aos homens privilégio tão suave, exceção tão única que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?"

Pedro Calderón de La Barca

Poderia explicar antes de publicar esse maravilhoso monólogo, escrito em 1636 pelo escritor espanhol Pedro Calderón de La Barca, mas o próprio é tão maravilhoso que, antes de perderem tempo, o melhor é assisti-lo, antes; em segundos, com os olhos já marejados de lágrimas, vão supor, caros fiéis seguidores, que outro objetivo não há senão decompor em pedaços o seu coração, metáfora que abriga o sentimento humano. Uma vez comovidos, qualquer que seja essa minha tentativa vã de explicação, qualquer uma, lhes será boa. E eu, vendo meu peixe, partilho com vós o que o acaso me entregou e faço aqui a minha parte; se não crio, passo a criação adiante.
 O monólogo, ou solilóquio, como preferirem, parte do livro A Vida é Sonho, foi no Brasil usado primeiramente na peça teatral Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, e, em 2009, foi adaptada para o cinema pelo diretor e produtor Daniel Filho. Perdoem-me se há algum equívoco nessas informações, mas se o há, é irrelevante à finalidade dessa postagem.
Dois aspectos mais importantes devem ser destacados.
O monólogo, que se torna mais emocionante ainda se de antemão for sabido que está sendo proferido por um príncipe polonês prisioneiro em uma torre e que de lá faz indagações sobre vida e liberdade...
O talento do ator Dan Stulbach, que dá emoção ainda maior ao texto, por sí só já extremamente comovente.
E ainda um último detalhe, este sobre o filme: O ator Tony Ramos, que na pele do truculento Segismundo, carrega a tensão de fazer-nos odiá-lo durante toda a trama e, em meio às lágrimas ao final do monólogo, nos desata o riso. Fica apenas o registro, já que participou também como espectador na cena e o foco principal é o monólogo de Calderón de La Barca.

Dan Stulbach
Queria partilhar essa maravilha com vocês...aí está!