segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NÃO USEM O NOME DE PESSOA EM VÃO

Fernando Pessoa

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.





Certo dia me mandaram uma mensagem adornada com o primeiro verso da Autopsicografia. Havia tempo que estava por lembrar o padrinho do blog através de uma publicação, mas não queria nem o faria por um motivo tão frívolo. Mas calhou que não sou de deixar barato. Neste dia, bateu-me à porta (e não era o Corvo de Poe) uma transcrição, como já disse, do primeiro verso dela com o intuito preconcebido de me chamar de fingido. Não que não o seja vez ou outra. Faz parte do barro do Divino Oleiro, criador das criaturas, os defeitos de caráter, um dos dissabores do livre arbítrio. Entre estes, a arte de dissimular! Então sei também fingir. Mas não é algo que faça com frequência e nem esse ardil me vem à ideia muito constantemente. No caso, que estou cá a enrolar, não "vinha ao caso" usá-la, como disse, frivolamente, ou melhor, erroneamente, de forma vil e vã a "criação" do padrinho; um sacrilégio e, como tal, convinha esta reação. Bem, tendo já introduzido, vamos à dissertação:
Em um primeiro lugar, Pessoa não chamou os poetas de fingidores, falsos, dissimuladores, enganadores. O poeta lusitano mais ilustre, depois de Camões, chamou primeiramente para sí o adjetivo mal empregado na intenção de atingir-me. Senão, a poesia teria outro título. E ao se autopsicografar, não faria por bem se auto-ofender. Assim, em uma primeira vista, "o poeta é um fingidor" quis dizer outra coisa, que está a vagar na bruma metafórica onde mora a poesia. E, como a poesia é uma figura espacial (aqui vai um agrado aos matemáticos que certamente não leem blogs sobre literatura), a dita cuja pode ser analisada por qualquer uma de suas "arestas", menos por essa fria, seca e debochada, visão, que nem visão é, pois pegou o verso e tascou o que dizia literalmente na face deste que vos posta essa pérola dissertativa. É como ler uma poesia intitulada "ladrão de corações" e mandá-la pra Brasília afim de ofender os distintos parlamentares. Ficou claro pra vocês?
Bem, então, posto isso, vou me aventurar a querer interpretar o que Pessoa escreveu. Como disse, a coisa tem mil e uma faces, mil e uma interpretações. Vamos à minha...

O poeta sente. E sente pra dedéu. Sente imensamente. Faz parte da sua natureza. E essa hipersensibilidade faz com que viaje nas aventuras e desventuras das sensações vividas. Mal começa a viagem e sai à cata de uma folha de papel para transformá-la em poesia. Por vezes, coloca-se no lugar de observador; vê o sofrimento alheio e se transmuta, passando a viver a sensação de outrem. "Finge" sentir, mas finge tão ardentemente, que acaba por sentir a dor que não é sua. E ainda tem a dor que ele realmente sente. As dores do mundo, as decepções, os amores perdidos, as ilusões desfeitas. Não é raro o poeta que foge. Sentimento que é seu, sentimento que não é seu, e a cabeça embaralha que chega a duvidar se a dor é sua ou a pegou emprestada. Vira um camaleão de sensações. No afã de expressar-se, idealiza sua própria dor ao limite de fingir que é dor a dor que deveras sente. E daí vem o verso... Pode não ser nada disso, até porque já estou embaralhado com esse verso que parece mais uma pegadinha. Mas, uma coisa tenho certeza. Ele não chamou a "categoria" de fingida, nem eu sou fingido porque me aventuro a escrever versos. O resto dessa ladainha pode ser, pode não ser... Mas, voltando, em meio a esse mixer de emoções ele escreve:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


Felizmente usaram apenas o primeiro verso. Então fico por aqui. Se nada disso lhes parece ter sentido, saboreiem os versos do Dindo. E tenho dito!

Antes, porém, queria lembrar de um momento muito interessante acontecido quando li pela primeira vez Autopsicografia. Por ironia (acho que de irônico se poderia chamar Pessoa, não de fingido, nem eu...) há muitos anos, em Brusque, existia um lugar chamado Núcleo de Difusão Cultural, um espaço aberto às artes e, entre elas, a poesia. Andava muito por lá e lá conheci uma das 4 seguidoras desse blog, Nane Maurici, e também a mulher que mais amei na vida (e que ainda amo). Se minha memória não falha, as duas estavam, certa noite presentes em um sarau literário ou coisa que o valha. Assistia embevecido à interpretação de O Corvo, de Edgar Allan Poe, magicamente interpretado por um ator de Blumenau. Ao lado de onde estava sentado havia uma caixa e dentro dela mil papeizinhos cada qual com uma poesia escrita nele. Podia-se botar a mão na caixa e tirar um papelote lá de dentro. Peguei Autopsicografia. Li. Guardei-o no bolso e levei para casa. O que tem a ver tudo isso? A pessoa que mais amei na vida e que estava ao meu lado naquele longínquo dia, é a mesma que me presenteou com o primeiro verso da poesia do padrinho na mensagem que gerou tudo isso.... Mas, guardo essa noite como uma das noites mais belas que passei naquela cidade a ponto de descrevê-la, a noite, em seus mais íntimos detalhes...
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