quinta-feira, 17 de maio de 2012

Josué Guimarães no Palavra Escrita

Recentemente admiti que tenho um medo louco de morrer sozinho e anônimo. Mas como a companheira do medo é a covardia, revelei a fobia para apenas três amigos, distintos e, convenientemente, distantes. Esse medo, creio eu, nasceu comigo. E formou-se na imagem de um dos poucos romances que li ao final da década de 80. Como já disse em outras publicações, sempre fui e sempre serei um leitor preguiçoso e afoito. Se tiver em mãos um resumo, lá vou eu por esse atalho. Se ainda usasse o tempo que sobra para mais leitura, ainda vá. Mas ganho tempo ali para ficar de papo pro ar pensando a morte das bezerras. Exceto quando o romance me pega pelas fraquezas que tenho: o amor em sua face estritamente romanesca e os medos. Camilo Mortágua pegou-me pelo medo. Não quero aqui depreciar a obra de Josué Guimarães alegando um motivo tão fútil; o romance é excelente. A história ainda acontece no bairro onde morava e os locais descritos no enredo são os mesmos que conheci durante minha infância. O resumo do romance está logo abaixo para aqueles que quiserem lê-lo, cabe explicar contudo que Mortágua era um velho e morava em uma pensão no bairro Azenha, em Porto Alegre. Frequentava o cinema do bairro (Roma), onde vê, projetado na tela, a história de sua família. E lá, quando o filme de sua vida acaba, acaba também a sua vida. Onde entra a minha fobia? Na descrição precisa do quarto de pensão onde morava, banheiro no corredor, rotina diária de tomar café no quarto, dar as migalhas de pão aos pardais que frequentavam sua janela que tinha como vista os fundos dos edifícios vizinhos. Para dizer a verdade, talvez haja aqui alguns equívocos nos detalhes que possa ter adicionado ao longo dos anos, coisas emprestadas de outros romances, coisas criadas sem ter-me dado conta. Mas a razão de ter eleito esse romance para materializar meu medo está estampada em Camilo Mortágua. E por causa dele, hoje quem não conhecia, passa a saber da existência de um dos romances mais importantes da literatura gaúcha escrito pelo saudoso Josué.
CAMILO MORTÁGUA
(Resumo do Livro)

Romance publicado em 1980, Camilo Mortágua representa, na obra de Josué Guimarães,a culminância de uma trajetória e, ao mesmo tempo, o retrospecto dos resultados alcançados. A incorporação do trajeto histórico do Estado coincide com a evolução da intriga, sobretudo com a biografia do herói que dá nome à obra. Nascido ao final do século 19, o protagonista vem a falecer na primeira semana de abril de 1964. Com isto, o autor introduz no fluxo narrativa setenta anos da história sul-rio-grandense; e, ainda que a família Mortágua, indiferente passe ao largo dos fenômenos externos, emergem ao fundo as notícias relativas às guerras européias, revoluções brasileiras, o suicídio de Vargas, enfim, os fatos mais marcantes do século 20, misturados a trivialidades domésticas, mudanças nas modas, novos costumes, etc.

Assim sendo, se a história não é o eixo que suporta o transcurso dos acontecimentos, ela ali está, e sua fusão a fatos miúdos do cotidiano, porém igualmente relevantes segundo o modus vivendi dos Mortágua, reforça a evidência de que o alheamento crescente desses significa seu paulatino deslocamento do poder - econômico e social. Os setenta anos ocupados pela biografia de Camilo correspondem ao processo de desagregação da classe dominante sulina de extração rural. Transferidos para um centro urbano mais desenvolvido, a dilapidação das propriedades dos Mortágua deve-se, de um lado,, à sua leviandade e falta de tino gerencial; em outras palavras, decorre de sua incapacidade de adaptação ao novo cenário, em que avulta a mentalidade empresarial burguesa. De outro lado, são os acontecimentos históricos que empurram o País na direção da atividade mercantil e industrial e isto, a família, envolvida com seus amores e culpas, doenças e mortes sucessivas, não pode alcançar e compreender. O romance se enxerta à temática da decadência. Camilo Mortágua, o protagonista, revê a história de sua vida ao ir ao cinema. Na tela, em vez de Cleópatra, a Rainha de César, o filme mostra a trajetória da decadência da família de Camilo. Eis o recurso narrativo utilizado pelo escritor.

Como contexto histórico, Josué utiliza os sofridos acontecimentos do golpe de 64. A história se passa em Porto Alegre, recuperando o bairro da Azenha, a avenida Independência, o parque Farroupilha, a avenida Osvaldo Aranha, a avenida João Pessoa, a Faculdade de Direito, a Santa Casa de Misericórdia, a Igreja da Conceição, etc. Nascido ao final do século XIX, Camilo Mortágua morre na primeira semana de abril de 1964, fornecendo as coordenadas temporais que facultam a introdução, no fluxo narrativo, de setenta anos da história sulina. Os setenta anos de Camilo assentam-se numa seqüência narrativa dividida entre a moldura - os cinco primeiros dias do mês de abril de 1964, durante os quais ocorrem simultaneamente o golpe político e militar contra o governo constituído e a revisão da biografia de Camilo - e a intriga propriamente dita. Esta apresenta cronologicamente a vida do herói, cindida em três fases: a infância e juventude, quando a família vive seu apogeu irresponsável, na primeira quadra do século; a maturidade, durante a qual ele restaura o poderio econômico do clã através da incursão no comércio e indústria porto-alegrenses; a velhice, quando ocorre a decadência final, já na segunda metade do século.

Estes setenta anos, que explicitam os temas descritos, mostram-se, no decorrer do relato, embutidos em três noites, de modo que, na rapidez do écran, Camilo assiste à sucessiva e galopante desagregação de sua existência e de sua família, o que culmina numa morte inglória e quase anônima, na escuridão de um cinema de bairro. Em outras palavras, todo o largo espectro da vida do herói cabe inteiramente na semana de abril, durante a qual se dão o golpe militar e a consolidação, no poder público, de seus líderes. Camilo, mais uma vez, mantém-se alheio ao evento histórico, mas isso não significa que não faça a parte dele. Pelo contrário, como se encaixa em seu começo, acaba por imprimir-se neste princípio, vindo a demonstrar como o movimento serviu para reavivar seres como ele, para a seguir, acelerar seu passamento. Este fato é que dá sentido à moldura do romance, sem o qual não se faria a transferência para o presente, assinalado este pela continuidade dos acontecimentos desencadeados na semana em que é morto o protagonista.

Situando a narrativa no período crucial em que se inaugura uma nova época da história nacional, o escritor o traduz como um rito de passagem, que exige, para sua efetivação, um ato propiciatório - a morte de Camilo. Por isso, condensa nele toda uma aventura humana fadada ao sacrifício e revela a oportunidade de sua consumação. Nesta medida, se o livro se propõe a reconstituir um passado para diagnosticar a deterioração gradual de um grupo que exerceu um domínio inquestionável no Sul, ajustando as peculiaridades do romance histórico à inclinação temática da produção literária de Josué Guimarães, ele ainda se projeta para a atualidade do leitor, lançando-lhe a indagação, sempre relevante, a respeito da permanência ou modificação das circunstâncias que suscitaram a imolação de Camilo Mortágua, no momento em que nada mais tinha a oferecer à existência.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A INACÇÃO CONSOLA TUDO

Fernando Pessoa


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 221.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NÃO USEM O NOME DE PESSOA EM VÃO

Fernando Pessoa

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.





Certo dia me mandaram uma mensagem adornada com o primeiro verso da Autopsicografia. Havia tempo que estava por lembrar o padrinho do blog através de uma publicação, mas não queria nem o faria por um motivo tão frívolo. Mas calhou que não sou de deixar barato. Neste dia, bateu-me à porta (e não era o Corvo de Poe) uma transcrição, como já disse, do primeiro verso dela com o intuito preconcebido de me chamar de fingido. Não que não o seja vez ou outra. Faz parte do barro do Divino Oleiro, criador das criaturas, os defeitos de caráter, um dos dissabores do livre arbítrio. Entre estes, a arte de dissimular! Então sei também fingir. Mas não é algo que faça com frequência e nem esse ardil me vem à ideia muito constantemente. No caso, que estou cá a enrolar, não "vinha ao caso" usá-la, como disse, frivolamente, ou melhor, erroneamente, de forma vil e vã a "criação" do padrinho; um sacrilégio e, como tal, convinha esta reação. Bem, tendo já introduzido, vamos à dissertação:
Em um primeiro lugar, Pessoa não chamou os poetas de fingidores, falsos, dissimuladores, enganadores. O poeta lusitano mais ilustre, depois de Camões, chamou primeiramente para sí o adjetivo mal empregado na intenção de atingir-me. Senão, a poesia teria outro título. E ao se autopsicografar, não faria por bem se auto-ofender. Assim, em uma primeira vista, "o poeta é um fingidor" quis dizer outra coisa, que está a vagar na bruma metafórica onde mora a poesia. E, como a poesia é uma figura espacial (aqui vai um agrado aos matemáticos que certamente não leem blogs sobre literatura), a dita cuja pode ser analisada por qualquer uma de suas "arestas", menos por essa fria, seca e debochada, visão, que nem visão é, pois pegou o verso e tascou o que dizia literalmente na face deste que vos posta essa pérola dissertativa. É como ler uma poesia intitulada "ladrão de corações" e mandá-la pra Brasília afim de ofender os distintos parlamentares. Ficou claro pra vocês?
Bem, então, posto isso, vou me aventurar a querer interpretar o que Pessoa escreveu. Como disse, a coisa tem mil e uma faces, mil e uma interpretações. Vamos à minha...

O poeta sente. E sente pra dedéu. Sente imensamente. Faz parte da sua natureza. E essa hipersensibilidade faz com que viaje nas aventuras e desventuras das sensações vividas. Mal começa a viagem e sai à cata de uma folha de papel para transformá-la em poesia. Por vezes, coloca-se no lugar de observador; vê o sofrimento alheio e se transmuta, passando a viver a sensação de outrem. "Finge" sentir, mas finge tão ardentemente, que acaba por sentir a dor que não é sua. E ainda tem a dor que ele realmente sente. As dores do mundo, as decepções, os amores perdidos, as ilusões desfeitas. Não é raro o poeta que foge. Sentimento que é seu, sentimento que não é seu, e a cabeça embaralha que chega a duvidar se a dor é sua ou a pegou emprestada. Vira um camaleão de sensações. No afã de expressar-se, idealiza sua própria dor ao limite de fingir que é dor a dor que deveras sente. E daí vem o verso... Pode não ser nada disso, até porque já estou embaralhado com esse verso que parece mais uma pegadinha. Mas, uma coisa tenho certeza. Ele não chamou a "categoria" de fingida, nem eu sou fingido porque me aventuro a escrever versos. O resto dessa ladainha pode ser, pode não ser... Mas, voltando, em meio a esse mixer de emoções ele escreve:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


Felizmente usaram apenas o primeiro verso. Então fico por aqui. Se nada disso lhes parece ter sentido, saboreiem os versos do Dindo. E tenho dito!

Antes, porém, queria lembrar de um momento muito interessante acontecido quando li pela primeira vez Autopsicografia. Por ironia (acho que de irônico se poderia chamar Pessoa, não de fingido, nem eu...) há muitos anos, em Brusque, existia um lugar chamado Núcleo de Difusão Cultural, um espaço aberto às artes e, entre elas, a poesia. Andava muito por lá e lá conheci uma das 4 seguidoras desse blog, Nane Maurici, e também a mulher que mais amei na vida (e que ainda amo). Se minha memória não falha, as duas estavam, certa noite presentes em um sarau literário ou coisa que o valha. Assistia embevecido à interpretação de O Corvo, de Edgar Allan Poe, magicamente interpretado por um ator de Blumenau. Ao lado de onde estava sentado havia uma caixa e dentro dela mil papeizinhos cada qual com uma poesia escrita nele. Podia-se botar a mão na caixa e tirar um papelote lá de dentro. Peguei Autopsicografia. Li. Guardei-o no bolso e levei para casa. O que tem a ver tudo isso? A pessoa que mais amei na vida e que estava ao meu lado naquele longínquo dia, é a mesma que me presenteou com o primeiro verso da poesia do padrinho na mensagem que gerou tudo isso.... Mas, guardo essa noite como uma das noites mais belas que passei naquela cidade a ponto de descrevê-la, a noite, em seus mais íntimos detalhes...
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sábado, 15 de outubro de 2011

Tempos de Paz - Monólogo de Segismundo



"Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus, para entender que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci, eu já entendo o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor, porque o crime maior do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados, só queria saber que outros crimes cometi contra Vós além do crime de nascer. Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas, ramalhete alado quando veloz cortando salões aéreos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e, com a pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade?
Nasce um peixe, aborto de ovas e Iodo e, feito um barco de escamas sobre as ondas, ele gira, gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?
Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente, entre flores se esconde onde músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão, um vulcão qual o Etna quisera arrancar do peito, pedaços do coração.
Que lei, justiça ou razão pôde recusar aos homens privilégio tão suave, exceção tão única que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?"

Pedro Calderón de La Barca

Poderia explicar antes de publicar esse maravilhoso monólogo, escrito em 1636 pelo escritor espanhol Pedro Calderón de La Barca, mas o próprio é tão maravilhoso que, antes de perderem tempo, o melhor é assisti-lo, antes; em segundos, com os olhos já marejados de lágrimas, vão supor, caros fiéis seguidores, que outro objetivo não há senão decompor em pedaços o seu coração, metáfora que abriga o sentimento humano. Uma vez comovidos, qualquer que seja essa minha tentativa vã de explicação, qualquer uma, lhes será boa. E eu, vendo meu peixe, partilho com vós o que o acaso me entregou e faço aqui a minha parte; se não crio, passo a criação adiante.
 O monólogo, ou solilóquio, como preferirem, parte do livro A Vida é Sonho, foi no Brasil usado primeiramente na peça teatral Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, e, em 2009, foi adaptada para o cinema pelo diretor e produtor Daniel Filho. Perdoem-me se há algum equívoco nessas informações, mas se o há, é irrelevante à finalidade dessa postagem.
Dois aspectos mais importantes devem ser destacados.
O monólogo, que se torna mais emocionante ainda se de antemão for sabido que está sendo proferido por um príncipe polonês prisioneiro em uma torre e que de lá faz indagações sobre vida e liberdade...
O talento do ator Dan Stulbach, que dá emoção ainda maior ao texto, por sí só já extremamente comovente.
E ainda um último detalhe, este sobre o filme: O ator Tony Ramos, que na pele do truculento Segismundo, carrega a tensão de fazer-nos odiá-lo durante toda a trama e, em meio às lágrimas ao final do monólogo, nos desata o riso. Fica apenas o registro, já que participou também como espectador na cena e o foco principal é o monólogo de Calderón de La Barca.

Dan Stulbach
Queria partilhar essa maravilha com vocês...aí está!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Abrindo o sonetário romântico
Descobri Ana Amélia, outra poetisa (poeta) mineira que radicou-se no Rio de Janeiro e de lá encantou o mundo da poesia, a exemplo do itabirano ilustre que tanto amo. Fazia tempo que não publicava nada;  estava, a exemplo do resto do mundo, preocupado com questões existenciais ligadas ao materialismo, se é que me entendem, e, sobre essa ótica míope, desculpem-me a redundância, é difícil ser romântico e dedicado, como sempre fui e sempre com certeza serei. Mas na pobreza de espírito ninguém vive eternamente; não, pessoas como nós, não conseguem viver de dísticos postados no twitter, expostos em papeletas fixadas à fronte, frases feitas, curtas e mensagens de rápida assimilação. Intimamente é necessário distender o homem humano dentro de nós e sua perspectiva humanitária e pensante, abrir mão dos fast foods das Redes Sociais, dizer não à visão adunca e ao maldoso olhar aquilino dos amantes do vil metal para, desculpem-me mais uma vez o deboche e trocadilho, que não nos transformemos em vis (débeis) mentais, andando pra lá e prá cá instintivamente. Deixando os neologismos pobres e ficando apenas com o "Sonetário", revelo ao mundo dos meus 4 seguidores que descobri essa poetisa e amei-a prontamente, acho que mais porque Mal de Amor pegou-me na jugular em uma sexta-feira de visita amorosa que mais se achega à minha forma anterior, essa descrita no início da postagem. Não serei o primeiro nem o último a sofrer com os malefícios e benefícios do amor. Aliás, tudo na vida existe, quando não por amor, por dinheiro, fortalecendo ainda mais a ideia do post. E aí, imerso no lamaçal em que jazia, descubro um blog, o Sonetário Brasileiro, e nele, superlativamente falando, milhares de sonetos de milhares de poetas da nossa amada Língua Pátria. E nele, a Ana Amélia Queirós. Seria ela uma portuguesa, parente próxima do Ecinha? Não, não era. Era brazuca mesmo. E nessa brasilidade cheia de amor descreve tudo que minha perturbada alma no momento sofre e quer jogar na cara do ser amado. E ainda por cima, tudo disposto em forma de soneto. Crau! Onomatopeias aparte, CRAU! Tava ali. Deus queira que a distinta não vasculhe o meu blog...
Falando sério agora, não existe nada mais lindo do que "qualquer coisa" amorosa. Digam qualquer coisa e, em seguida, uma palavra amorosa e essa "qualquer coisa" se transforma, em tudo que queremos dizer, fazer ser, comunicar. E paro por aqui, senão ficamos até a próxima visita dissertando sobre isso.
Bom, aí está, meus caros seguidores, a Aninha Amélia "sonetiando qualquer coisa", com todo o respeito, ela que nos deixou em 1971, mas deixou também entre outras maravilhas, esta, transcrita abaixo.
Até a próxima!

MAL DE AMOR
(Ana Amélia de Queirós)

Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença,
Seca-as depressa uma palavra boa.

A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que amor não vença.
Amor transforma em luz a treva densa,
Por um sorriso amor tudo perdoa.

Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado.

Noutra parte há de em vão buscar ventura.
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de amor só nesse amor tem cura.