sexta-feira, 22 de abril de 2011

O ÚLTIMO POEMA - MARIO QUINTANA

Enquanto me davam a extrema-unção,
Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia -
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuam andando,
Até hoje
Pelos caminhos deste mundo.

MARIO QUINTANA - A HUMILDADE DO POETA

Tem certas coisas que nos contam e com o passar do tempo não se sabe se era sonho, se era verdade ou se a verdade lembrada corresponde realmente a verdade... A verdade é que essa lembrança encontra-se ofuscada nos detalhes, mas é de inteira certeza que aconteceu, não bem assim, mas que aconteceu, aconteceu.
Quando era criança, em Porto Alegre, meu pai trabalhava no Caldas Júnior, na época o maior jornal gaúcho; a Companhia Jornalística Caldas Júnior chegava a imprimir quatro jornais diários (Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Tarde Final, todos tablóides, e o calhamaço do Correio do Povo) . E eu, não muito regularmente, costumava frequentar a redação do jornal, para ver o movimento, andar de elevador (uma novidade) e encher o saco do pessoal, colegas de papai, o que muito o contrariava. Nessas idas e vindas, ouvia histórias. Acontecia que o poeta Mario Quintana morava a algumas quadras do Jornal, no famoso Hotel Magestic, na Rua da Praia (Rua dos Andradas).
Uma dessas histórias dava conta da reconhecida humildade do poeta e a história é essa:
Certa vez, meu pai, ou um amigo dele ou nem um nem outro ao chegar nas proximidades da redação encontrou Quintana sentado no cordão da calçada. Ao seu lado, em pé, de vassourão em punho, um gari do DMLU. A cena, no mínimo curiosa, talvez tragicômica, chamava a atenção dos que por ali passavam. Primeiro por verem o famoso poeta, sentado na calçada, a escutar o gari, que estava em pé. Depois, pelo fato do gari estar chorando copiosamente. Disse a pessoa que me contou essa passagem, meu pai talvez, que o rapaz contava ao poeta sobre a recente traição da mulher. Quintana, atento ao relato, pacientemente, tentava consolar o gari... Creiam, é verdade e dou fé!

MARIO QUINTANA - SEMPRE SINGELO...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A UM POETA - ANTERO DE QUENTAL

ANTERO DE QUENTAL

  




   Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!