"Perguntou-me se queria
jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um
cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo de água. Ele
comeu. Lentamente, gradualmente, começamos a conversar quase em amizade. Eu sou
naturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado
e tinha lido. De repente, pouco depois da uma da noite, sentimos na escada um
andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quarto onde estávamos,
O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso.
Erguemo-nos sobressaltados, O cadáver achava-se coberto, O mascarado apagou as
luzes. Eu estava aterrado, O silêncio era profundo; ouvia-se apenas(...)"
— O Mistério da Estrada de Sintra (1870)
Estava em casa vendo televisão e inadvertidamente passei por um canal onde o filme O Mistério da Estrada de Sintra estava começando. Sabia já pelo título que se tratava da obra de Eça de Queirós, o surpreendente ficou por conta de estar passando um filme português e, mais ainda, sobre o grande mestre do Realismo lusitano. Realmente uma surpresa das mais saborosas, pois! Sozinho em casa, passava da meia-noite, silêncio e tempo (uma risadinha interior causada pela incredulidade fez com que me remexesse). Ajeitei-me na cadeira e comecei a saboreá-lo. Estranho. Sou assim, poucos mesmo entenderiam meus especiais prazeres e um deles é certamente este: mergulhar no Século XIX através dos livros (mais comumente) e vez ou outra pela tela do cinema. Salva-se isso da minha vida, já que a solidão parece-me ser a fiel companheira das últimas horas. Aliás, prefiro-a à conviver com tanta gente que fala, fala, fala, pelos cotovelos e não entende patavina de nada. Posto isso, sobre a surpresa do filme, o ambiente perfeito e o assunto tão caro, resta-me por fim falar sobre o filme e também sobre a narrativa onde os protagonistas são os autores da obra (Eça de Queirós e Ramalho Ortigão) e o cenário a sociedade portuguesa do Século XIX com idas e vindas à distante Malta, arquipélogo sob o domínio inglês na época.
VAMOS À OBRA E AO FILME
![]() |
| Ramalho Ortigão e Eça de Queirós (António Pedro Cerdeira e Ivo Canelas) |
A história começa com o sequestro de um médico
– Dr.*** – e de seu amigo escritor – F... O rapto, realizado por quatro
mascarados, ocorre na estrada de Sintra. O Dr.*** e o seu companheiro são
levados para uma misteriosa casa, onde se encontrava o cadáver estrangeiro.
Sabendo que um deles era médico, os raptores pretendiam verificar se, de facto,
o homem estava morto. Entretanto, são surpreendidos pela entrada de um jovem –
A.M.C., que viria a esclarecer todo o mistério. Rytmel era, afinal, um oficial
britânico que morreu vítima de uma dose excessiva de ópio que lhe dera a amante
– condessa de W., prima do mascarado alto. Esta desejava apenas adormecê-lo
para confirmar nos seus papéis se ele era ou não amante de uma irlandesa. A
condessa de W. era casada com um homem rico que não a fazia feliz. Conhecera
Rytmel numa viagem que fizera com o marido e com o primo a Malta. Cármen
disputara Rytmel com a condessa. Quando Rytmel lhe anuncia a sua vinda, esta
suspeitando do seu namoro com uma outra mulher, Miss Shorn, fica enciumada e
mata-o involuntariamente.
A.M.C., estudante de Coimbra,
honesto e provinciano, ouviu as confidências da condessa e dispôs-se a ajudá-la
na noite do falecimento de Rytmel, em que a encontrara desvairada e nervosa.
Quando volta ao local do crime, a pedido da condessa, encontra os bandidos, o
médico e o seu amigo. Todos juntos julgariam a atitude da condessa e fariam o
enterro do pobre inglês. Luísa acaba por se isolar num convento.
SOBRE O FILME
Verão de 1870. Dois escritores,
Eça (Ivo Canelas) e Ramalho (António Cerdeira). Ramalho é raptado. O desafio
está lançado. Escrever um policial a quatro mãos para o Diário de Notícias.
Será que a história que criaram como ficção é baseada num caso real? Esta é a
pergunta que sustenta o conflito entre estes dois escritores, e os afasta num
duelo quase mortal entre Sintra e Malta. O folhetim avança e com ele ameaças,
duelos, sexo e intrigas. Lisboa está em alvoroço. Todos se tomam pelo conde
atraiçoado. Os crimes sucedem-se numa história onde o amor é mais forte do que
a tradição, a intriga escapa às evidências e tudo corre freneticamente, como
num jogo.
O Mistério da Estrada de Sintra desafia todas
as convenções numa acutilante crítica de costumes à romântica sociedade
portuguesa do séc. XIX.
Ficha Técnica:
Realização: Jorge Paixão da Costa
Argumento: Jorge
Paixão da Costa, Newton Cannito e Tiago Borralho
Produtor: A. da Cunha
Telles, Pandora da Cunha Telles, Roberto d’Avila e Patrick Siaretta
Género: Aventura
Duração: 115’
Elenco:
Ivo Canelas (Eça de
Queirós)
António Cerdeira
(Ramalho Ortigão)
Bruna Di Tullio
(Condessa de Valadas)
Rogério Samora (Conde
de Valadas)
José Pedro
Vasconcelos (Primo Vasco)
Gisele Itié (Carmen
Puebla)
Flávio Galvão
(Nicázio Puebla)
James Weber-Brown (Capitão Rytmel)
Nicolau Breyner (Eduardo Coelho)
Prêmios:
Globos de Ouro,
Portugal (2008) – Melhor Actor (Ivo Canelas)
Detective Fest,
Rússia (2008) – Melhor Filme
Nomeações:
Festival de Gramado,
Brasil (2008) – Competição Internacional
Chicago Latino Film
Festival, EUA (2008)

Nenhum comentário:
Postar um comentário