quinta-feira, 18 de abril de 2013

O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA - EÇA DE QUEIRÓS


"Perguntou-me se queria jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo de água. Ele comeu. Lentamente, gradualmente, começamos a conversar quase em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado e tinha lido. De repente, pouco depois da uma da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quarto onde estávamos, O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobressaltados, O cadáver achava-se coberto, O mascarado apagou as luzes. Eu estava aterrado, O silêncio era profundo; ouvia-se apenas(...)"
 — O Mistério da Estrada de Sintra (1870)
 

Estava em casa vendo televisão e inadvertidamente passei por um canal onde o filme O Mistério da Estrada de Sintra estava começando. Sabia já pelo título que se tratava da obra de Eça de Queirós, o surpreendente ficou por conta de estar passando um filme português e, mais ainda, sobre o grande mestre do Realismo lusitano.  Realmente uma surpresa das mais saborosas, pois! Sozinho em casa, passava da meia-noite, silêncio e tempo (uma risadinha interior causada pela incredulidade fez com que me remexesse). Ajeitei-me na cadeira e comecei a saboreá-lo. Estranho. Sou assim, poucos mesmo entenderiam meus especiais prazeres e um deles é certamente este: mergulhar no Século XIX através dos livros (mais comumente) e vez ou outra pela tela do cinema. Salva-se isso da minha vida, já que a solidão parece-me ser a fiel companheira das últimas horas. Aliás, prefiro-a à conviver com tanta gente que fala, fala, fala, pelos cotovelos e não entende patavina de nada. Posto isso, sobre a surpresa do filme, o ambiente perfeito e o assunto tão caro, resta-me por fim falar sobre o filme e também sobre a narrativa onde os protagonistas são os autores da obra (Eça de Queirós e Ramalho Ortigão) e o cenário a sociedade portuguesa do Século XIX com idas e vindas à distante Malta, arquipélogo sob o domínio inglês na época.
 
VAMOS À OBRA E AO FILME

Ramalho Ortigão e Eça de Queirós (António Pedro Cerdeira e Ivo Canelas)
O Mistério da Estrada de Sintra é um romance da autoria conjunta de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão. Foi publicado no Diário de Notícias, de Lisboa, sobre a forma de cartas anônimas, entre 24 de Julho e 27 de Setembro de 1870, recebendo a primeira versão em livro em 1884. É a primeira narrativa de cariz policial da literatura portuguesa. A obra foi adaptada para o cinema em 2007 por Jorge Paixão da Costa.

A história começa com o sequestro de um médico – Dr.*** – e de seu amigo escritor – F... O rapto, realizado por quatro mascarados, ocorre na estrada de Sintra. O Dr.*** e o seu companheiro são levados para uma misteriosa casa, onde se encontrava o cadáver estrangeiro. Sabendo que um deles era médico, os raptores pretendiam verificar se, de facto, o homem estava morto. Entretanto, são surpreendidos pela entrada de um jovem – A.M.C., que viria a esclarecer todo o mistério. Rytmel era, afinal, um oficial britânico que morreu vítima de uma dose excessiva de ópio que lhe dera a amante – condessa de W., prima do mascarado alto. Esta desejava apenas adormecê-lo para confirmar nos seus papéis se ele era ou não amante de uma irlandesa. A condessa de W. era casada com um homem rico que não a fazia feliz. Conhecera Rytmel numa viagem que fizera com o marido e com o primo a Malta. Cármen disputara Rytmel com a condessa. Quando Rytmel lhe anuncia a sua vinda, esta suspeitando do seu namoro com uma outra mulher, Miss Shorn, fica enciumada e mata-o involuntariamente.
A.M.C., estudante de Coimbra, honesto e provinciano, ouviu as confidências da condessa e dispôs-se a ajudá-la na noite do falecimento de Rytmel, em que a encontrara desvairada e nervosa. Quando volta ao local do crime, a pedido da condessa, encontra os bandidos, o médico e o seu amigo. Todos juntos julgariam a atitude da condessa e fariam o enterro do pobre inglês. Luísa acaba por se isolar num convento.
SOBRE O FILME
Verão de 1870. Dois escritores, Eça (Ivo Canelas) e Ramalho (António Cerdeira). Ramalho é raptado. O desafio está lançado. Escrever um policial a quatro mãos para o Diário de Notícias. Será que a história que criaram como ficção é baseada num caso real? Esta é a pergunta que sustenta o conflito entre estes dois escritores, e os afasta num duelo quase mortal entre Sintra e Malta. O folhetim avança e com ele ameaças, duelos, sexo e intrigas. Lisboa está em alvoroço. Todos se tomam pelo conde atraiçoado. Os crimes sucedem-se numa história onde o amor é mais forte do que a tradição, a intriga escapa às evidências e tudo corre freneticamente, como num jogo.
 O Mistério da Estrada de Sintra desafia todas as convenções numa acutilante crítica de costumes à romântica sociedade portuguesa do séc. XIX.
Ficha Técnica:
Realização: Jorge Paixão da Costa
 Argumento: Jorge Paixão da Costa, Newton Cannito e Tiago Borralho
 Produtor: A. da Cunha Telles, Pandora da Cunha Telles, Roberto d’Avila e Patrick Siaretta
 Género: Aventura
 Duração: 115’
 Elenco:
 Ivo Canelas (Eça de Queirós)
 António Cerdeira (Ramalho Ortigão)
 Bruna Di Tullio (Condessa de Valadas)
 Rogério Samora (Conde de Valadas)
 José Pedro Vasconcelos (Primo Vasco)
 Gisele Itié (Carmen Puebla)
 Flávio Galvão (Nicázio Puebla)
 James Weber-Brown (Capitão Rytmel)
 Nicolau Breyner (Eduardo Coelho)
 
Prêmios:
 Globos de Ouro, Portugal (2008) – Melhor Actor (Ivo Canelas)
 Detective Fest, Rússia (2008) – Melhor Filme
Nomeações:
 Festival de Gramado, Brasil (2008) – Competição Internacional
 Chicago Latino Film Festival, EUA (2008)
 
 
 

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