sábado, 16 de junho de 2012

SONETOS DE SHAKESPEARE


SONETO LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.


SONETO CV

Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.

É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.

'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,

Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

SONETO 23

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

SONETO 92

Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.

Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.

Tua mente inconstante não me afeta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta

Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.

SONETO 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te recuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso."

POBRES SÃO OS QUE NÃO LEEM WILLIAM SHAKESPEARE

O escritor da vez, nessa sábado que ensaia uma reação e que o gosto amargo na boca contradiz, é Shakespeare. Tenho essas ideias durante a madrugada. Falei da Virgínia Woolf, a escritora inglesa, e da poetisa portuguesa Florbela Espanca e a vida "miserável", que ambas tiveram, na noite passada, e apareceu uma citação da Virgínia no meio dizendo sentir pena dos "pobres" que não leem Shakespeare."Embora raramente permeável ao amor pela humanidade, às vezes tenho pena dos pobres que não leem Shakespeare.", disse ela. Aí pensei em uni-los e  se ele, a exemplo de ambas, também teve uma vida tumultuada. Shakespeare, o dramaturgo, ao que parece, não teve. Suas obras não eram impulsionadas pela realidade pessoal caótica, pelos dramas existenciais, mas sim por uma compreensão maior, um entendimento quase que perfeito da natureza humana e sua face pecadora. Em sua obra, quase todos os "pecados capitais" desfilam em fila indiana. Então me permitam, vou desenvolver melhor esse "conceito" que a insônia desalmada me traz. Antes, porém, uma explicação: Ao misturar Virgínia Woolf e Florbela Espanca e Shakespeare, quero provar que a motivação, a inspiração destes três personagens históricos se manifestaram de forma distinta em suas obras, nas duas primeiras através de uma sensibilidade extrema e depressiva e na última de uma forma diferente, mas não menos intensa. Para isso, vamos primeiramente situar o bardo inglês. Shakespeare por excelência é incomparável a qualquer escritor, poeta ou dramaturgo  e se, por ventura o for, somente pode sê-lo em grandeza, com, digamos, Luís Vaz de Camões? A comparação aqui, possível entre Virgínia e Florbela, somente é cabível na análise que estou propondo: o ponto de vista motivacional. O que os movia, o que os inspirava? E se na obra de Shakespeare, realidade e ficção se misturaram e esses sinais são identificáveis nela. Só (tudo) isso... Vamos focar então no dramaturgo e poeta William Shakespeare. 
William Shakespeare (1564- 1616)  foi um poeta e dramaturgo inglês e é tido como o maior escritor da língua inglesa e o mais influente dramaturgo do mundo. O Bardo, como era frequentemente chamado, deixou como obra 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e diversos outros poemas. Suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo, e são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permaneceram vivos até aos nossos dias, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras mais conhecidas estão Romeu e Julieta, que se tornou a história de amor por excelência, e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that's the question (Ser ou não ser, eis a questão). O que quero destacar aqui não é a sua grandiosidade, que é inquestionável, mas se havia nele traços depressivos e se eles inspiraram suas "tragédias". E a resposta não é lá muito longa. Para isso, uma reportagem investigativa teria que ser feita, tendo em vista que viveu quase 300 anos antes das "moças" supra descritas e, por conseguinte, dados precisos sobre sua vida são em muitos pontos impossíveis. Teorias tomam muitas vezes o lugar dos fatos. De fato mesmo é que Shakespeare produziu a maior parte de sua obra entre 1590 e 1613. Suas primeiras peças eram principalmente comédias e obras baseadas em eventos e personagens históricos, gêneros que ele levou ao ápice da sofisticação e do talento artístico ao fim do século XVI. Vejam que em uma primeira "fase" Shakespeare escrevia comédias e obras de conteúdo histórico. Li certa vez "Muito Barulho por Nada", uma dessas comédias e realmente era hilária. Recentemente assisti ao filme protagonizado por Denzel Washington, que, confesso, não honra a obra shakespeariana. Shakespeare merece intérpretes britânicos... Voltando ao foco, daí, dele ter inicialmente escrito "comédias" da à sua personalidade, inicialmente, um certo desprendimento, irreverência e presença de espírito e esses não são indícios de uma alma confusa e melancólica. Como disse, inicialmente.  A partir de então, em meados do Século XVII a coisa começa a ficar séria.  Escreve apenas tragédias até por volta de 1608, incluindo Hamlet, Rei Lear e Macbeth, consideradas algumas das obras mais importantes na língua inglesa. Na sua última fase, aparentemente mais acomodado, escreveu um conjunto de peças classificadas como tragicomédias ou romances, e colaborou com outros dramaturgos. Apenas como informação biográfica, que à minha tese pouco acrescenta, cabe destacar que, diversas de suas peças foram publicadas, em edições com variados graus de qualidade e precisão, durante sua vida. Em 1623 dois de seus antigos colegas de teatro publicaram o chamado First Folio, uma coletânea de suas obras dramáticas que incluía todas as peças (com a exceção de duas) reconhecidas atualmente como sendo de sua autoria. Shakespeare foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX, época em que despontavam para o mundo Florbela e Virgínia. Logo, a obra do bardo inglês serviu-lhes como inspiração, à Virgínia como dramaturgo e à Florbela como sonetista, creio eu. Notem que tudo isso com certeza só poderia sair mesmo de uma cabeçorra desocupada como a minha e tem notadamente cunho especulativo. No ato final vem a parte mais emocionante, o efeito da obra entre os que vieram depois. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George Bernard Shaw chamava de "bardolatria". Românticos e vitorianos fizeram parte da vida das duas e elas adoravam Shakespeare. Curiosidade apenas. Uma maneira ardilosa de colocar em ligação esses três. No século XX sua obra foi adotada e redescoberta repetidamente por novos movimentos, tanto na academia e quanto na performance. Mas é a migração da primeira fase de Shakespeare para a fase, digamos, mais impactante e importante dele, reconhecida a importância do que foi produzido nela, é que nos interessa: A tragédia! À um olhar leviano, parece que Shakespeare nesse período era um rapaz alegre e que em determinado ponto tornou-se taciturno, crítico, descrente e, trágico. Aparentemente. Não acredito que na época ele fosse influenciado pelo gosto de uma sociedade sedenta por "águas mais profundas" nem por um desejo frívolo de simplesmente mudar.  Afinal era Shakespeare e ele sabia quem era, os gênios sabem. Falar que essa transição fosse fruto de amadurecimento também seria depreciar o que até então havia escrito; talvez, a meu ver, o que tenha acontecido foi uma mescla desses motivos: um apelo do meio pelo "gênero" tragédia, quem sabe em voga, e uma vaidosa busca por desafios maiores e, nesse sentido, a tragédia é intelectualmente mais complexa do que a comédia ou obras de conteúdo histórico. Então, agradar ao público e dar vazão a um desejo incontrolável do intelecto podem ser levados em consideração.  Mas estaria Shakespeare abalado emocionalmente, passando por um drama pessoal que seu intelecto materializou nas suas mais importantes criações? É possível, mas não é provável. A obra de alguém que muda e vai na direção do suicídio, como foram as minhas belas, é marcada por fatalidade e descrença, é fria e soturna, ígnea não pela luz, mas pela paixão devastadora e cruel da decepção com o amor e a vida. Fica estampado no processo criativo. E a impressão, identificável  na obra, é confirmada no ato final, desfalecida em uma cama ou afogada em um rio com pedras nos bolsos do casaco. Skakespeare continuou a sua obra juntando elementos cômicos e críticos à sociedade da época; em suas peças mais eloquentes (Romeu e Julieta, Hamlet e Macbeth) a tragédia vinha acompanhada de denúncia, de avisos às pessoas de como o ser humano pode ser cruel e maquiavélico, como essa "maldade humana" se materializa e como o amor e a virtude libertam. Tudo na trama parece estar em seu perfeito lugar e dá o seu recado. Não há ódio descabido nem tristeza fatal que não com o objetivo primeiro de legitimar e dar "personalidade" dramática à Romeu, Julieta, Hamlet, Otelo, Iago... Já estou exausto, mas a verdade é que não sei se o que é visto nas obras da minha escritora e da minha poetisa (e que intuo terem os genes de um drástico final) que as levaram ao suicídio ou se presumi isso sabendo antecipadamente desse final trágico das suas histórias de vida. E como com Shakespeare não se sabe com certeza as circunstâncias reais dos seus últimos momentos, vejo sua obra dentro de um plano dramático equilibrado. Sobre a morte de Shakespeare, acredita-se que não foi nada tão "dramático", tem até uma boa pitada de comicidade e ironia. Contam que ele estava com uma forte febre e que ao receber a visita de amigos bebeu demais e isso agravou o seu delicado estado de saúde, levando-o à morte. Se existem "teorias" sobre a causa mortis de Shakespeare - e suicídio não consta da lista - então com certeza a relação dele com a sua obra não o levou à depressão e nem a um triste ato final. Até a data de seu nascimento é duvidosa, uns dizem que nasceu em Stratford-upon-Avon em 26 de Abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616 na mesma cidade; outros afirmam que faleceu em 23 de abril de 1616, mesmo dia de seu nascimento, o que seria coincidente com a história de Florbela que nasceu e morreu no mesmo dia e mês. Mas de qualquer jeito não há indício de que tenha atentado contra a própria vida. Nem que sofresse de qualquer desordem emocional. Não se sabe também dele com exatidão até detalhes sobre sua aparência física, sexualidade, crenças religiosas, e se algumas das obras que lhe são atribuídas teriam sido escritas por outros autores. Alguns estudiosos e pesquisadores até acreditam na hipótese de que Shakespeare não seja realmente o autor das próprias obras. Uma loucura. Bem, na parte que me diz respeito, ao enfoque que quis desenvolver, não há indícios de suicídio, embora se ponha em suspeição muita coisa a respeito desse respeitável gênio. O meu objetivo foi alcançado. Por um motivo secundário e sem valor, digamos, histórico ou literário, falei de três autores, duas mulheres contemporâneas e suas histórias e deixei no campo da especulação a força motriz que "os moveu e demoveu". E soube mais sobre eles... Achavam que iriam escapar? Falta a obra de Virgínia Woolf... 
Depois de todo esse trabalho, de sobremesa os sonetos do Bardo, alguns para minha delícia... e de quem chegou até aqui. Fica pra próxima publicação, hoje ainda. Como disse, estou exausto! E amanhã, tenho certeza que vou achar tudo isso muito incongruente. Mas o tempo passou e o sábado está no fim; o esforço que fiz fez com que esquecesse a minha própria miséria emocional...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

FLORBELA ESPANCA - BIOGRAFIA

"Quem me dera encontrar o verso puro, o verso altivo e forte, estranho e duro, que dissesse a chorar isto que sinto!"

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa.  A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade[ e panteísmo.
Entre 1899 e 1908, Florbela frequentou a escola primária em Vila Viçosa. Foi naquele tempo que passou a assinar os seus textos Flor d’Alma da Conceição.  As suas primeiras composições poéticas datam dos anos 1903 - 1904: o poema "A Vida e a Morte", o soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles, e um poema escrito por ocasião do aniversário do pai. Em 1907, Florbela escreveu o seu primeiro conto: "Mamã!" No ano seguinte, faleceu a sua mãe, Antónia, com apenas vinte e nove anos. Florbela ingressou então no Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário. Durante os seus estudos no Liceu, Florbela requisitou diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, aproveitando então para ler obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett.  Em 1913 casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola.  Em 1916, de volta a Redondo, a poetisa reuniu uma selecção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promover as suas poesias falharam. No mesmo ano, Florbela iniciou a colaborar como jornalista em Modas & Bordados (suplemento de O Século de Lisboa), em Notícias de Évora e em A Voz Pública, também evorense.  A poetisa regressou de novo a esta cidade em 1917. Completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.  Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Um ano mais tarde a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infectado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose. Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem de duzentos exemplares esgotou-se rapidamente.  Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 1922, a recém fundada Seara Nova publicou o seu soneto "Prince charmant…", dedicado a Raul Proença. Em Janeiro de 1923 veio a lume a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, edição paga pelo pai da poetisa. Para sobreviver, Florbela começou a dar aulas particulares de português. Florbela casou-se duas vezes.  Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. O seu ex-marido, António Guimarães, abriu mais tarde uma agência, "Recortes", que colecionava notas e artigos sobre vários autores. O seu espólio pessoal reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981. Ao todo são 133 recortes.  Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921 e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926. Em 1927 a autora principiou a sua colaboração no jornal D. Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro.  Naquele tempo não encontrava editor para a coletânea Charneca em Flor. Preparava também um volume de contos, provavelmente O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto. No mesmo ano, Apeles Espanca, o irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião.  A sua morte foi devastadora para Florbela. Em homenagem ao irmão, escreveu o conjunto de contos As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928 ela teria tentado o suicídio pela primeira vez. Em 1930 Florbela começou a escrever o seu Diário do Último Ano, pubicado só em 1981. A 18 de Junho principiou a correspondência com Guido Battelli, professor italiano, visitante na Universidade de Coimbra, responsável pela publicação da Charneca em Flor em 1931. Na altura, a poetisa colaborou também no Portugal Feminino de Lisboa, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos do Porto. Florbela tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi a sobredose de barbitúricos.  A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.
“Não tenhas medo, não! Tranquilamente, como adormece a noite pelo outono, fecha os olhos, simples, docemente, como à tarde uma pomba que tem sono…”

FLORBELA ESPANCA - A POETISA DO AMOR

Portuguesa, poetisa, presa entre dois séculos e vivendo em uma sociedade dominada pelo homem. A história de Florbela Espanca, que logicamente será publicada nessa postagem, explica em parte a densidade e intensidade de sua obra. Morreu cedo, morreu desiludida, mas morreu tendo amado intensamente. Sim, o adjetivo ideal à Florbela é "intensa".
Não é necessário dizer mais nada sobre ela...
 Hoje pela manhã, como já está se tornando habitual, acordei mergulhado na angústia e com aquela frase que já nem sei se é minha ou li em algum lugar, "antes ter muito amado e sofrido, do que ser incapaz de amar". Lógico que esse tipo de pensamento tem endereço certo, mas é superlativamente aplicável a todos os amores de uma vida. E tão logo tratei da rotina diária das oito da manhã, fui a busca do www.citador.pt, um site, ou sítio, como corretamente chamam os nossos irmãos lusitanos, na intenção de colocar pra fora esse veneno matutino que vem sabe-se lá de onde e que elimino através da poesia, lendo-as e as publicando. A causa de minha angústia é o amor, um amor escarnecido que viajou do escárnio à catarse e da purificação voltou a ser amor, um amor amargo e puro. Um amor de Florisbela... e ela cá está a encantar. Foi difícil a seleção de quatro sonetos, separei os que traduzem mais meu sentimento nesse dia...

Frieza

Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Livro de Soror Saudade
Minha Culpa
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém
Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...
Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...
Charneca em Flor
Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Livro de Soror Saudade


quinta-feira, 14 de junho de 2012

EU, SCHUBERT E A SOLIDÃO

Sinto-me triste. Pela primeira vez uso o blog para externar minha profunda decepção com o amor, com a delinquente forma que meu amor foi tratado. Guardo essa data, 14 de junho, para, na companhia de Franz, marcar de vez minha decepção. Ela tem nome, mas não merece vê-lo revelado. Fica apenas essa postagem como marco indelével e a frase registrada qual um epitáfio: - Eu não te amo mais como homem! Mas Schubert é excepcional. Violinos tristes e um sentimento que ora é passivo e entregue à lassidão de corpo e alma, ora é resignado e forte. Com ele, com meu amigo Franz, eu consigo soluçar, como soluçou Werther ao ver seu amor perdido por Carlota. Sei que não existe ninguém lá fora que entenda o que se passa aqui. Estou assim, como a música de Schubert, nessa gangorra macabra. Ostento essa barba como fixa à porta da geladeira a foto, obesa, da que faz regime. Tem sim, a barba, um significado explícito de que devo manter-me acordado e alerta para nunca mais ser vítima de decisões torpes. Que não devo deixar que essa solidão e silêncio acabem por silenciar-me de vez. Não na figura estúpida e fria da morte física, mas na morte da fé, da crença no amor e bondade. Ficamos nós aqui, eu e ele, indo e vindo nesse espaço de tempo que abriga dois séculos. Eu e Schubert, companheiro!

Bate o tempo seu compasso (Prenez soin de vous)

Bate o tempo seu compasso
De espera e contratempos
E ausências e espaços...
Faz parte do tempo-espaço ser por ela ignorado? 
Bate o tempo fiel, carrasco,
De passos sem direção,
De corações imolados
No altar da ilusão. 
Bate em mim (e não nela),
No seco e não no molhado,
O amor separado
Por muralhas de heras. 
Faz parte do amor o não ser amado?

Foi assim meu passado,
Irrefletido, sulcado,
Pelo vazio deixado
Nesse compasso de espera, 
Olhar preso à janela,
A vidraça embaçada,
Uma vida passada
A lembrar sempre dela. 
Não sou mais quem eu fui,
Nem mais é quem foi ela.  
Junho, 2010.

13 DE JUNHO - ANIVERSÁRIO DO POETA

FERNANDO PESSOA
(13 DE JUNHO DE 1888 - 30 DE NOVEMBRO DE 1935)





O AMOR
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.