quarta-feira, 20 de junho de 2012

MACHADO DE ASSIS - O BRUXO DO COSME VELHO

José Maria MACHADO DE ASSIS
Ao longo do tempo, Machado de Assis tem sido o escritor mais estudado da literatura brasileira. Embora ele tenha falecido há mais de cem anos, a sua obra continua fascinando as novas gerações, que leem seus livros como se eles tivessem sido publicados na véspera. Dono de um estilo inconfundível e admirável, Joaquim Maria chega ao século XXI mais atual do que nunca. Odiado por uns e amado por muitos, o autor de Dom Casmurro permanece quase como um “acidente” em nossa literatura. De origem muito humilde, “obscuro, artista anônimo, tipógrafo, depois revisor de provas, depois noticiarista, depois cronista, folhetinista e poeta, depois chefe incontestado da literatura brasileira. Apenas isto: uma reputação nacional, feita a pouco e pouco, passo a passo, dia a dia, na modéstia, na perseverança e no trabalho para o pão de cada dia, e no estudo e no esforço nobre para conquista do saber e da glória”. Assim Lúcio de Mendonça descreve o amigo, defendendo-o contra acusações de Diocleciano Mártir, que denunciou Machado como um dos inimigos da República! São casos como este e muitas outras anedotas e curiosidades ligadas ao “bruxo do Cosme Velho” que o autor nos revela neste livro delicioso, escrito numa linguagem simples e agradável, indispensável não só a estudantes de Letras, mas a todos interessados na obra do grande mestre. Enfim, acabamos descobrindo uma nova face do escritor que diziam viver escondido como um caramujo: um homem apaixonado pela vida, pelos seus semelhantes e pelo seu tempo.


 (Sinopse do livro Memorial do Bruxo - Conhecendo Machado de Assis, de José Antonio Martino)





Há pouco escrevi sobre a vida e a obra de Virgínia Woolf, escritora inglesa de enorme prestígio e sucesso e consegui esboçar-lhe o perfil intercalando sua vida e obra. Não li nada dela que não fosse o estritamente necessário para, como disse, traçar-lhe o perfil, incentivando assim o leitor do blog a lê-la. Fiz isso baseando-me exclusivamente em um filme que vi em 2002 e dos resumos que coletei aqui e ali. Já com Machado de Assis a história é outra. Na minha juventude, não muito distante, li A Mão e a Luva. Depois, nada mais. Esse romance, o segundo dele, escrito em 1874, dois anos após Ressureição, tinha-me deixado na memória a semente da poética romântica, do lirismo contido nos personagens românticos do Século XIX, mesmo sem ter-me dado conta disso. Aos púberes quatorze anos, não tinha senão arroubos de grandeza e força e todos os meus esforços estavam a serviço de impressionar o sexo oposto; sabia que essa história de sentimento e sensibilidade traría-me apenas dissabores. Mas era um romântico em potencial naquela época e esse livro ficou gravado como a representação do tipo de homem que queria ser: educado, honrado, sensível, dedicado ao sentimento e ao amor. Era toda aquela aura primorosa do cavalheirismo romântico que o continha que me seduzia. E estava presente em A Mão e a Luva. Trinta e dois anos mais tarde, essa verve romanesca se manifestou. Ao ler Goethe, desencadeou-se tudo isso. Então, Machado de Assis foi o primeiro.
Obviamente, para quem conhece um pouco da história da literatura, sabe que A Mão e a Luva pertence à primeira fase de Machado de Assis, que mais tarde seria influenciado pelo que os críticos definem como a fase parnasiano-realista. Não vou castigar o leitor com mais uma biografia, apenas destaco como a crítica o definia, uma razoável ideia de como era o "homem" e  "escritor" Machado de Assis.


Dizem os críticos que Machado era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."

Então, amados leitores, para poupá-los de muita leitura, deixo-os com três vídeos sobre a obra e vida de Machado de Assis e ao largo sua biografia, caso a queiram ler. Mais além, alguns trechos de seus mais importantes romances, ao meu gosto, pois é muito difícil selecionar o que escreveu e uma audácia desses que vos escreve, um soneto meu em parceria com o Machadinho. O documentário foi veiculado pela TV Senado. Assistam aos três episódios:
UM DOCUMENTÁRIO SOBRE A VIDA DO BRUXO











DO MORRO DO LIVRAMENTO À PRESIDÊNCIA DA ABL

Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que frequentará o autodidata Machado de Assis.

De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando. Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.

Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.

Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre. Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

Em 1858 volta à Livraria Paula Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade Lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.

Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada (onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias.

Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor. No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais.

Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas.
Carolina Augusta Xavier

Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.

Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.

Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou.

Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872. Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida.

No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira.

Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura.


Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas.

Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete.

Publica, nesse ano, um livro extremamente original, pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas - que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira.

Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data (1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906).

Machado de Assis (2º da esq. sentado) e os Imortais da ABL
Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889.

Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a ideia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a ideia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa.
Academia Brasileira de Letras
É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.



Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.


terça-feira, 19 de junho de 2012

ENCONTRO MARCADO COM VIRGÍNIA WOOLF

Virgínia Woolf
Já havia marcado esse encontro. Sentei-me à janela. Uma árvore em frente à casa quase desfolhou-se toda essa madrugada; lembrou meu compulsivo e inútil trabalho da tarde de ontem quando em vão recolhia uma folha enquanto caiam outras tantas da galharia e resolveu zombar de mim ainda mais, ela que logo estará como a amendoeira de Rubem Braga ( "no momento está sem folhas, e sua galhada nua se desenha no céu feio."  (O Homem Rouco, p. 25). E, na chuva torrencial que atravessou a noite, cobriu o pátio de um tapete âmbar, pintando sua tela com a própria seiva. Estou sentado à olhá-la através da vidraça. Faz um ano que está comigo. Vi-a nua em julho passado; despe-se novamente agora. Brevemente essa visão será apenas um retrato, embaçado, uma imagem difusa das horas que aqui estive. Horas de alguma alegria, é verdade, quando o amor nessa casa reinava. Horas de angústia e tristeza, quando, inclemente, ausentou-se. Momentos, tempo, horas. Horas!?  Lembram? O encontro marcado com Virgínia Woolf? Envolvi-a em uma trama surreal: ela, Florbela Espanca e Shakespeare. Não contente, ainda prometi que escreveria particularmente sobre sua obra. As horas, pois sim! Postei pela manhã no Facebook o vídeo do filme baseado no livro de Michael Cunningham que se chama "As Horas", onde Nicole Kidman interpreta o papel de Virgínia Woolf. Kidman foi premiada com um Oscar por seu retrato da escritora britânica. Através deste filme, já há algum tempo, entrei em contato pela primeira vez com a história de Woolf. No meu inconsciente ficara gravado a vontade de escrever um dia sobre sua vida marcante. Chegou a Hora!



The Voyage Out
Virginia Adeline StephenWoolf (Londres, 25 de Janeiro de 1882 — Lewes, 28 de Março de 1941) foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo, movimento que permeou as artes na primeira metade do Século XX.  Ela era membro do Grupo de Bloomsbury, um grupo de artistas e intelectuais britânicos que existiu entre 1905 até o fim da II Guerra Mundial. Quase tudo o que diz respeito a esse grupo é matéria de controvérsias, desde a sua composição até seu nome. Atualmente, entretanto, parece claro que, na origem, dele participaram os romancistas e ensaístas Virginia Woolf, E. M. Forster e Mary (Molly) MacCarthy, o biógrafo e ensaísta Lytton Strachey, o economista John Maynard Keynes, os pintores Duncan Grant, Vanessa Bell e Roger Fry, o crítico literário Desmond MacCarthy, o crítico de arte Clive Bell e o jornalista Leonard Woolf, com quem a escritora foi casada até sua morte em 1941.
Virgínia Woolf desempenhava um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entreguerras. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928), bem como o livro-ensaio Um Quarto Só Para Si (1929), onde encontra-se a famosa citação "Uma mulher deve ter dinheiro e um quarto próprio se ela quiser escrever ficção". Sua primeira obra foi The Voyage Out, publicada em 1915. O romance Mrs. Dalloway ficou conhecido pelo filme As Horas,  já citado como precursor deste "ensaio" . As Horas conta várias histórias, mescla a vida da própria autora numa personagem e coloca algumas particularidades de Mrs. Dalloway numa dessas histórias. Em Mrs. Dalloway, Virginia descreve um único dia da personagem, quando ela prepara uma festa. 
Então, em linhas gerais, esse seria um breve resumo da vida da escritora e sua obra. Mas, meu interesse não é publicar tão-somente uma biografia de Woolf, pois ela já existe publicada, até porque as biografias tendem a ser entediantes e meu objetivo não é entediar ninguém. Quero é trazer à luz o que teve ou deixou para o mundo de interessante e ela, com certeza, era uma mulher interessante - interessantíssima -, ainda mais, pode-se abusar dos superlativos: era inteligentíssima! E para analisar uma pessoa assim, corre-se o risco de não compreendê-la completamente, porque em sua essência Virgínia não era comum. E nós, mundanos, somos. Daí a necessidade de que não a julguemos sob a ótica dos valores que nós, comuns, fomos ensinados a cultuar.Vamos é ver o que de herança Virgínia Woolf deixou, tão-somente...
Orlando e Vita Sackville-West
Sua obra mais conhecida é Orlando, publicada em 1928. É uma fantasia histórica sobre o período elisabetano. O Período Elisabetano ou Período Isabelino é o período associado ao reino da rainha Isabel ou Elizabeth I (1558-1603) e considerado frequentemente uma era dourada da história inglesa. Esta época corresponde ao ápice da renascença inglesa, na qual se viu florescer a literatura e a poesia do país. Este foi também o tempo durante o qual o teatro elizabetano cresceu e Shakespeare, entre outros, escreveu peças que rompiam com o estilo a que a Inglaterra estava acostumada. Quem? Shakespeare! Ele mesmo.
Orlando (no original em inglês, Orlando: A Biography) é uma novela semi-biográfica baseada em parte na vida da amiga íntima de Woolf, Vita Sackville-West. O romance é considerado um dos mais acessíveis de Woolf.  É a história de um jovem inglês que nasce na Inglaterra da Idade Moderna e, durante uma estada na Turquia, simplesmente acorda mulher. A personagem é dotada de imortalidade e o livro acompanha Orlando por seus 350 anos de vida. Bem-humorado, é um dos grandes exemplares do modernismo inglês e um dos ápices da arte literária de Virginia Woolf.
Assim define o romance o poeta catarinense Enzo Potel: "Para alguns, o livro mais atual de Woolf. Para outros, a ovelha negra de sua produção. Entre ambas as opiniões, a certeza de que Orlando é uma fresta notável dentro da obra total da autora. Uma biografia inventada, sorvida e dedicada à existência da Vita Sackville-West, sua andrógina amante..." Virgínia conheceu a poetisa, romancista e renomada paisagista Victoria Sackville-West – Vita – em 1919, e logo se tornaram grandes amigas. O envolvimento amoroso ocorreu seis anos depois que se conheceram e durou aproximadamente dois anos (mesmo assim, permaneceram amigas até a morte de Virginia). Vita era casada com Sir Harold Nicolson, também bissexual, e teve com ele um longo e bem-sucedido casamento aberto.
As Ondas e o cachorro Flush
As ondas é talvez o divisor de águas de Virginia Woolf. Com ele, a escritora abandonou todas as trivialidades, tudo aquilo que não era necessário, e deixou apenas a poesia e o sentimento pulsantes, justamente o que prende o leitor do início ao fim da obra. Um romance marcado por forte introspecção, sem argumento definido, sem conversa, sem ação. Ele é todo escrito como discurso direto de seis personagens - Bernard, Neville, Louis, Jinny, Susan, Rhoda - que falam das suas inquietações, seus sentimentos escondidos. O sol nasce e se põe e, em paralelo ao seu trajeto, nasce e se põe também a vida humana, a cada dia, a cada suspiro, a cada convicção jogada fora.
Após terminar As Ondas, em 1931, Virginia Woolf estava exausta. Ela seguiu então para a sua casa de campo levando o livro das cartas entre os poetas Elizabeth Barrett e Robert Browning. Na leitura, percebeu a presença permanente de um cachorro; resolve então, por diversão, escrever a visão desse cachorro do mundo à sua volta. Essa obra foi muito elogiada por fazer um relato minucioso sobre a época dos dois poetas. Ironicamente foi a obra que mais deu retorno financeiro à escritora e a mais traduzida em outros idiomas. A obra é a "biografia" de um cão que teria pertencido à Elizabeth Barrett Browning. Mostra as aventuras e os mistérios da existência percebidos através dos olhos do melhor amigo do homem. O personagem central dessa história é um cocker spaniel de origem inglesa, Flush. Veja uma passagem em que fala de Flush:
" (...) Em pleno processo de apreensão do mundo e de si mesmo, ele ama tanto os raios de sol quanto um pedaço de rosbife, a companhia de cadelinhas malhadas assim como a companhia de seres humanos, o cheiro de campos abertos tanto quanto ruas cimentadas e o burburinho da cidade..."
Na obra, iniciada com o objetivo de distrair-se após um período exaustivo, a escritora não deixa de tecer comentários críticos sobre a sociedade inglesa e vitoriana e seus valores. 
Virgínia Woolf (Nicole Kidman)
Mistress Dalloway

A obra de Woolf é extensa. Com o destaque de Mrs. Dalloway para encerrar, creio que dou ao leitor uma ideia bem razoável sobre quem era Virgínia Woolf; não quero matar-lhes a curiosidade. Assim que é bom mesmo: Deixar o gosto por mais.
Mrs Dalloway foi publicado em 1925. É uma das obras mais conhecidas da autora. Em 2005, foi escolhido pela revista Time como um dos cem melhores romances em língua inglesa de 1923 até o presente. Mrs Dalloway conta a história de um dia na vida de Clarissa Dalloway no período pós-Primeira Guerra Mundial, na Inglaterra. Criado a partir de dois contos, "Mrs. Dalloway em Bond Street" e o inacabado "O primeiro-ministro", o livro trata dos preparativos para uma festa da qual Clarissa é anfitriã. A história viaja para a frente e para trás no tempo e se desenvolve dentro e fora da mente das personagens para construir uma imagem da vida de Clarissa. Como já destaquei no início da publicação, o romance da escritora Virgínia Woolf serviu como palco para o romance As Horas, de Michael Cunningham, e o livro serviu como base para As Horas, o filme, um longa-metragem anglo - americano de 2002, dirigido por Stephen Daldry, e que rendeu à Virgínia o conhecimento que lhe faltava entre o grande público. Inclusive eu, que conhecia a escritora inglesa só de nome, fiquei impressionado com a representação da escritora protagonizado pela atriz Nicole Kidman.
Em três períodos diferentes vivem três mulheres ligadas ao livro Mrs. Dalloway. Em 1923 vive Virginia Woolf (Nicole Kidman), autora do livro, que enfrenta uma crise de depressão e ideias de suicídio. Em 1951 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida que mora em Los Angeles, planeja uma festa de aniversário para o marido e não consegue parar de ler o livro. Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que vive em Nova York e dá uma festa para Richard (Ed Harris), escritor que fora seu amante no passado e hoje está com AIDS e morrendo. 
Espero que os tenha dado uma ideia de quem foi a genial Virgínia, uma mulher de personalidade marcante que produziu obras importantes durante a conturbada primeira metade do Século XX. Conturbada também foi a sua vida, como é comumente a vida de pessoas excepcionais. E dessa incompreensível excepcionalidade produziu para o mundo esse legado admirável, indelével, impressionante que me permiti repassar.  
No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso Virgínia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril. Antes, escreveu ao marido, Leonardo Woolf, um carta de despedida onde explica sua decisão de desistir da vida.

 Querido,
 Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.
V.

A sua última obra foi Entre os atos, publicada em 1941, posterior à sua morte.





Bibliografia de Virgínia Woolf:
The Voyage Out (1915), Night and Day (1919), Jacob's Room (1922), Mrs. Dalloway (1925), The Common Reader (1925 - Primeiro volume), To the Lighthouse (1927), Orlando: A Biography (1928), A Room of One's Own (1929), The Waves (1931), The Common Reader (1932 - Segundo volume), Flush: A Biography (1933), The Years (1937), Roger Fry (1940), Between the Acts (1941), Contos Completos (1917-1941)...

sábado, 16 de junho de 2012

SONETOS DE SHAKESPEARE


SONETO LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.


SONETO CV

Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.

É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.

'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,

Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

SONETO 23

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

SONETO 92

Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.

Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.

Tua mente inconstante não me afeta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta

Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.

SONETO 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te recuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso."

POBRES SÃO OS QUE NÃO LEEM WILLIAM SHAKESPEARE

O escritor da vez, nessa sábado que ensaia uma reação e que o gosto amargo na boca contradiz, é Shakespeare. Tenho essas ideias durante a madrugada. Falei da Virgínia Woolf, a escritora inglesa, e da poetisa portuguesa Florbela Espanca e a vida "miserável", que ambas tiveram, na noite passada, e apareceu uma citação da Virgínia no meio dizendo sentir pena dos "pobres" que não leem Shakespeare."Embora raramente permeável ao amor pela humanidade, às vezes tenho pena dos pobres que não leem Shakespeare.", disse ela. Aí pensei em uni-los e  se ele, a exemplo de ambas, também teve uma vida tumultuada. Shakespeare, o dramaturgo, ao que parece, não teve. Suas obras não eram impulsionadas pela realidade pessoal caótica, pelos dramas existenciais, mas sim por uma compreensão maior, um entendimento quase que perfeito da natureza humana e sua face pecadora. Em sua obra, quase todos os "pecados capitais" desfilam em fila indiana. Então me permitam, vou desenvolver melhor esse "conceito" que a insônia desalmada me traz. Antes, porém, uma explicação: Ao misturar Virgínia Woolf e Florbela Espanca e Shakespeare, quero provar que a motivação, a inspiração destes três personagens históricos se manifestaram de forma distinta em suas obras, nas duas primeiras através de uma sensibilidade extrema e depressiva e na última de uma forma diferente, mas não menos intensa. Para isso, vamos primeiramente situar o bardo inglês. Shakespeare por excelência é incomparável a qualquer escritor, poeta ou dramaturgo  e se, por ventura o for, somente pode sê-lo em grandeza, com, digamos, Luís Vaz de Camões? A comparação aqui, possível entre Virgínia e Florbela, somente é cabível na análise que estou propondo: o ponto de vista motivacional. O que os movia, o que os inspirava? E se na obra de Shakespeare, realidade e ficção se misturaram e esses sinais são identificáveis nela. Só (tudo) isso... Vamos focar então no dramaturgo e poeta William Shakespeare. 
William Shakespeare (1564- 1616)  foi um poeta e dramaturgo inglês e é tido como o maior escritor da língua inglesa e o mais influente dramaturgo do mundo. O Bardo, como era frequentemente chamado, deixou como obra 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e diversos outros poemas. Suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo, e são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permaneceram vivos até aos nossos dias, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras mais conhecidas estão Romeu e Julieta, que se tornou a história de amor por excelência, e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that's the question (Ser ou não ser, eis a questão). O que quero destacar aqui não é a sua grandiosidade, que é inquestionável, mas se havia nele traços depressivos e se eles inspiraram suas "tragédias". E a resposta não é lá muito longa. Para isso, uma reportagem investigativa teria que ser feita, tendo em vista que viveu quase 300 anos antes das "moças" supra descritas e, por conseguinte, dados precisos sobre sua vida são em muitos pontos impossíveis. Teorias tomam muitas vezes o lugar dos fatos. De fato mesmo é que Shakespeare produziu a maior parte de sua obra entre 1590 e 1613. Suas primeiras peças eram principalmente comédias e obras baseadas em eventos e personagens históricos, gêneros que ele levou ao ápice da sofisticação e do talento artístico ao fim do século XVI. Vejam que em uma primeira "fase" Shakespeare escrevia comédias e obras de conteúdo histórico. Li certa vez "Muito Barulho por Nada", uma dessas comédias e realmente era hilária. Recentemente assisti ao filme protagonizado por Denzel Washington, que, confesso, não honra a obra shakespeariana. Shakespeare merece intérpretes britânicos... Voltando ao foco, daí, dele ter inicialmente escrito "comédias" da à sua personalidade, inicialmente, um certo desprendimento, irreverência e presença de espírito e esses não são indícios de uma alma confusa e melancólica. Como disse, inicialmente.  A partir de então, em meados do Século XVII a coisa começa a ficar séria.  Escreve apenas tragédias até por volta de 1608, incluindo Hamlet, Rei Lear e Macbeth, consideradas algumas das obras mais importantes na língua inglesa. Na sua última fase, aparentemente mais acomodado, escreveu um conjunto de peças classificadas como tragicomédias ou romances, e colaborou com outros dramaturgos. Apenas como informação biográfica, que à minha tese pouco acrescenta, cabe destacar que, diversas de suas peças foram publicadas, em edições com variados graus de qualidade e precisão, durante sua vida. Em 1623 dois de seus antigos colegas de teatro publicaram o chamado First Folio, uma coletânea de suas obras dramáticas que incluía todas as peças (com a exceção de duas) reconhecidas atualmente como sendo de sua autoria. Shakespeare foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX, época em que despontavam para o mundo Florbela e Virgínia. Logo, a obra do bardo inglês serviu-lhes como inspiração, à Virgínia como dramaturgo e à Florbela como sonetista, creio eu. Notem que tudo isso com certeza só poderia sair mesmo de uma cabeçorra desocupada como a minha e tem notadamente cunho especulativo. No ato final vem a parte mais emocionante, o efeito da obra entre os que vieram depois. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George Bernard Shaw chamava de "bardolatria". Românticos e vitorianos fizeram parte da vida das duas e elas adoravam Shakespeare. Curiosidade apenas. Uma maneira ardilosa de colocar em ligação esses três. No século XX sua obra foi adotada e redescoberta repetidamente por novos movimentos, tanto na academia e quanto na performance. Mas é a migração da primeira fase de Shakespeare para a fase, digamos, mais impactante e importante dele, reconhecida a importância do que foi produzido nela, é que nos interessa: A tragédia! À um olhar leviano, parece que Shakespeare nesse período era um rapaz alegre e que em determinado ponto tornou-se taciturno, crítico, descrente e, trágico. Aparentemente. Não acredito que na época ele fosse influenciado pelo gosto de uma sociedade sedenta por "águas mais profundas" nem por um desejo frívolo de simplesmente mudar.  Afinal era Shakespeare e ele sabia quem era, os gênios sabem. Falar que essa transição fosse fruto de amadurecimento também seria depreciar o que até então havia escrito; talvez, a meu ver, o que tenha acontecido foi uma mescla desses motivos: um apelo do meio pelo "gênero" tragédia, quem sabe em voga, e uma vaidosa busca por desafios maiores e, nesse sentido, a tragédia é intelectualmente mais complexa do que a comédia ou obras de conteúdo histórico. Então, agradar ao público e dar vazão a um desejo incontrolável do intelecto podem ser levados em consideração.  Mas estaria Shakespeare abalado emocionalmente, passando por um drama pessoal que seu intelecto materializou nas suas mais importantes criações? É possível, mas não é provável. A obra de alguém que muda e vai na direção do suicídio, como foram as minhas belas, é marcada por fatalidade e descrença, é fria e soturna, ígnea não pela luz, mas pela paixão devastadora e cruel da decepção com o amor e a vida. Fica estampado no processo criativo. E a impressão, identificável  na obra, é confirmada no ato final, desfalecida em uma cama ou afogada em um rio com pedras nos bolsos do casaco. Skakespeare continuou a sua obra juntando elementos cômicos e críticos à sociedade da época; em suas peças mais eloquentes (Romeu e Julieta, Hamlet e Macbeth) a tragédia vinha acompanhada de denúncia, de avisos às pessoas de como o ser humano pode ser cruel e maquiavélico, como essa "maldade humana" se materializa e como o amor e a virtude libertam. Tudo na trama parece estar em seu perfeito lugar e dá o seu recado. Não há ódio descabido nem tristeza fatal que não com o objetivo primeiro de legitimar e dar "personalidade" dramática à Romeu, Julieta, Hamlet, Otelo, Iago... Já estou exausto, mas a verdade é que não sei se o que é visto nas obras da minha escritora e da minha poetisa (e que intuo terem os genes de um drástico final) que as levaram ao suicídio ou se presumi isso sabendo antecipadamente desse final trágico das suas histórias de vida. E como com Shakespeare não se sabe com certeza as circunstâncias reais dos seus últimos momentos, vejo sua obra dentro de um plano dramático equilibrado. Sobre a morte de Shakespeare, acredita-se que não foi nada tão "dramático", tem até uma boa pitada de comicidade e ironia. Contam que ele estava com uma forte febre e que ao receber a visita de amigos bebeu demais e isso agravou o seu delicado estado de saúde, levando-o à morte. Se existem "teorias" sobre a causa mortis de Shakespeare - e suicídio não consta da lista - então com certeza a relação dele com a sua obra não o levou à depressão e nem a um triste ato final. Até a data de seu nascimento é duvidosa, uns dizem que nasceu em Stratford-upon-Avon em 26 de Abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616 na mesma cidade; outros afirmam que faleceu em 23 de abril de 1616, mesmo dia de seu nascimento, o que seria coincidente com a história de Florbela que nasceu e morreu no mesmo dia e mês. Mas de qualquer jeito não há indício de que tenha atentado contra a própria vida. Nem que sofresse de qualquer desordem emocional. Não se sabe também dele com exatidão até detalhes sobre sua aparência física, sexualidade, crenças religiosas, e se algumas das obras que lhe são atribuídas teriam sido escritas por outros autores. Alguns estudiosos e pesquisadores até acreditam na hipótese de que Shakespeare não seja realmente o autor das próprias obras. Uma loucura. Bem, na parte que me diz respeito, ao enfoque que quis desenvolver, não há indícios de suicídio, embora se ponha em suspeição muita coisa a respeito desse respeitável gênio. O meu objetivo foi alcançado. Por um motivo secundário e sem valor, digamos, histórico ou literário, falei de três autores, duas mulheres contemporâneas e suas histórias e deixei no campo da especulação a força motriz que "os moveu e demoveu". E soube mais sobre eles... Achavam que iriam escapar? Falta a obra de Virgínia Woolf... 
Depois de todo esse trabalho, de sobremesa os sonetos do Bardo, alguns para minha delícia... e de quem chegou até aqui. Fica pra próxima publicação, hoje ainda. Como disse, estou exausto! E amanhã, tenho certeza que vou achar tudo isso muito incongruente. Mas o tempo passou e o sábado está no fim; o esforço que fiz fez com que esquecesse a minha própria miséria emocional...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

FLORBELA ESPANCA - BIOGRAFIA

"Quem me dera encontrar o verso puro, o verso altivo e forte, estranho e duro, que dissesse a chorar isto que sinto!"

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa.  A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade[ e panteísmo.
Entre 1899 e 1908, Florbela frequentou a escola primária em Vila Viçosa. Foi naquele tempo que passou a assinar os seus textos Flor d’Alma da Conceição.  As suas primeiras composições poéticas datam dos anos 1903 - 1904: o poema "A Vida e a Morte", o soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles, e um poema escrito por ocasião do aniversário do pai. Em 1907, Florbela escreveu o seu primeiro conto: "Mamã!" No ano seguinte, faleceu a sua mãe, Antónia, com apenas vinte e nove anos. Florbela ingressou então no Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário. Durante os seus estudos no Liceu, Florbela requisitou diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, aproveitando então para ler obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett.  Em 1913 casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola.  Em 1916, de volta a Redondo, a poetisa reuniu uma selecção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promover as suas poesias falharam. No mesmo ano, Florbela iniciou a colaborar como jornalista em Modas & Bordados (suplemento de O Século de Lisboa), em Notícias de Évora e em A Voz Pública, também evorense.  A poetisa regressou de novo a esta cidade em 1917. Completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.  Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Um ano mais tarde a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infectado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose. Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem de duzentos exemplares esgotou-se rapidamente.  Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 1922, a recém fundada Seara Nova publicou o seu soneto "Prince charmant…", dedicado a Raul Proença. Em Janeiro de 1923 veio a lume a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, edição paga pelo pai da poetisa. Para sobreviver, Florbela começou a dar aulas particulares de português. Florbela casou-se duas vezes.  Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. O seu ex-marido, António Guimarães, abriu mais tarde uma agência, "Recortes", que colecionava notas e artigos sobre vários autores. O seu espólio pessoal reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981. Ao todo são 133 recortes.  Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921 e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926. Em 1927 a autora principiou a sua colaboração no jornal D. Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro.  Naquele tempo não encontrava editor para a coletânea Charneca em Flor. Preparava também um volume de contos, provavelmente O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto. No mesmo ano, Apeles Espanca, o irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião.  A sua morte foi devastadora para Florbela. Em homenagem ao irmão, escreveu o conjunto de contos As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928 ela teria tentado o suicídio pela primeira vez. Em 1930 Florbela começou a escrever o seu Diário do Último Ano, pubicado só em 1981. A 18 de Junho principiou a correspondência com Guido Battelli, professor italiano, visitante na Universidade de Coimbra, responsável pela publicação da Charneca em Flor em 1931. Na altura, a poetisa colaborou também no Portugal Feminino de Lisboa, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos do Porto. Florbela tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi a sobredose de barbitúricos.  A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.
“Não tenhas medo, não! Tranquilamente, como adormece a noite pelo outono, fecha os olhos, simples, docemente, como à tarde uma pomba que tem sono…”

FLORBELA ESPANCA - A POETISA DO AMOR

Portuguesa, poetisa, presa entre dois séculos e vivendo em uma sociedade dominada pelo homem. A história de Florbela Espanca, que logicamente será publicada nessa postagem, explica em parte a densidade e intensidade de sua obra. Morreu cedo, morreu desiludida, mas morreu tendo amado intensamente. Sim, o adjetivo ideal à Florbela é "intensa".
Não é necessário dizer mais nada sobre ela...
 Hoje pela manhã, como já está se tornando habitual, acordei mergulhado na angústia e com aquela frase que já nem sei se é minha ou li em algum lugar, "antes ter muito amado e sofrido, do que ser incapaz de amar". Lógico que esse tipo de pensamento tem endereço certo, mas é superlativamente aplicável a todos os amores de uma vida. E tão logo tratei da rotina diária das oito da manhã, fui a busca do www.citador.pt, um site, ou sítio, como corretamente chamam os nossos irmãos lusitanos, na intenção de colocar pra fora esse veneno matutino que vem sabe-se lá de onde e que elimino através da poesia, lendo-as e as publicando. A causa de minha angústia é o amor, um amor escarnecido que viajou do escárnio à catarse e da purificação voltou a ser amor, um amor amargo e puro. Um amor de Florisbela... e ela cá está a encantar. Foi difícil a seleção de quatro sonetos, separei os que traduzem mais meu sentimento nesse dia...

Frieza

Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Livro de Soror Saudade
Minha Culpa
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém
Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...
Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...
Charneca em Flor
Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Livro de Soror Saudade