Sinto-me triste. Pela primeira vez uso o blog para externar minha profunda decepção com o amor, com a delinquente forma que meu amor foi tratado. Guardo essa data, 14 de junho, para, na companhia de Franz, marcar de vez minha decepção. Ela tem nome, mas não merece vê-lo revelado. Fica apenas essa postagem como marco indelével e a frase registrada qual um epitáfio: - Eu não te amo mais como homem! Mas Schubert é excepcional. Violinos tristes e um sentimento que ora é passivo e entregue à lassidão de corpo e alma, ora é resignado e forte. Com ele, com meu amigo Franz, eu consigo soluçar, como soluçou Werther ao ver seu amor perdido por Carlota. Sei que não existe ninguém lá fora que entenda o que se passa aqui. Estou assim, como a música de Schubert, nessa gangorra macabra. Ostento essa barba como fixa à porta da geladeira a foto, obesa, da que faz regime. Tem sim, a barba, um significado explícito de que devo manter-me acordado e alerta para nunca mais ser vítima de decisões torpes. Que não devo deixar que essa solidão e silêncio acabem por silenciar-me de vez. Não na figura estúpida e fria da morte física, mas na morte da fé, da crença no amor e bondade. Ficamos nós aqui, eu e ele, indo e vindo nesse espaço de tempo que abriga dois séculos. Eu e Schubert, companheiro!
No princípio Deus criou... .Não, não comecemos por aí... No princípio criei um Blog para falar da Arte, arte esta que nem a Língua Escrita ou Falada consegue definir por completo. E dessa incompreensível Arte, a Literatura, Portuguesa, universal e seus atores... Cá estamos!
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Bate o tempo seu compasso (Prenez soin de vous)
Bate o tempo seu compasso
De espera e contratempos
E ausências e espaços...
E ausências e espaços...
Faz parte do tempo-espaço ser
por ela ignorado?
Bate o tempo fiel, carrasco,
De passos sem direção,
De corações imolados
No altar da ilusão.
De passos sem direção,
De corações imolados
No altar da ilusão.
Bate em mim (e não nela),
No seco e não no molhado,
O amor separado
Por muralhas de heras.
No seco e não no molhado,
O amor separado
Por muralhas de heras.
Faz parte do amor o não ser
amado?
Foi assim meu passado,
Irrefletido, sulcado,
Pelo vazio deixado
Nesse compasso de espera,
Foi assim meu passado,
Irrefletido, sulcado,
Pelo vazio deixado
Nesse compasso de espera,
Olhar preso à janela,
A vidraça embaçada,
Uma vida passada
A lembrar sempre dela.
A vidraça embaçada,
Uma vida passada
A lembrar sempre dela.
Não sou mais quem eu fui,
Nem mais é quem foi ela.
Nem mais é quem foi ela.
Junho,
2010.
13 DE JUNHO - ANIVERSÁRIO DO POETA
FERNANDO PESSOA
(13 DE JUNHO DE 1888 - 30 DE NOVEMBRO DE 1935)

(13 DE JUNHO DE 1888 - 30 DE NOVEMBRO DE 1935)

O AMOR
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
UM SUJEITO INDETERMINADO
AULA DE PORTUGUÊS
A linguagem na ponta da língua, tão fácil de
falar e de entender.
A linguagem na superfície estrelada de
letras sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e
vai desmatando o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática esquipáticas
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia em que
pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua
entrecortada do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Dizem que, quando se apela a um sujeito
indeterminado, o sujeito é o próprio. Mas por necessidade de anonimato ou
timidez ou mesmo covardia, o distinto se esconde nas mil e uma oportunidades
que a Língua nos dá. Seria correto afirmar também que essas indeterminações do
sujeito estão entre os temas preferidos que, dizem, brincam os professores de
português amantes da gramática quando estão entediados. Sendo mais específico
ainda, valem-se dos devaneios da sintaxe para mostrar que, além de dominarem as
regras gramaticais, dominam também os desdobramentos das orações. Loucura maior
ainda é não saber se a frase “Dizem que, quando se apela a...” tem um sujeito
oculto, mas aí seria determinado, ou o sujeito é indeterminado ou ainda se a
oração não tem sujeito. Vai alguém se sujeitar a isso... Contudo, tem gente que
estuda e entende do assunto e sai por aí se ufanando. Tem gosto pra tudo nessa
vida... Analogamente é o que fazem alguns músicos, cansados das notas mais
simples e das estruturas musicais comportadinhas, abusam das dissonantes e
torturam os meros mortais com suas improvisações por puro exibicionismo, a
exemplo do jazzistas. Bem, deve ter gente à beça querendo a minha cabeça. Só
falta falar mal dos muçulmanos e to ferrado de vez...
Mas
vou esclarecer: Tenho verdadeira ojeriza à análise sintática. Já fico todo
enrolado com o uso da crase, dos porquês, das concordâncias verbais e ainda
tenho que lidar com isso, com as combinações de ordenação, dependência e
concordância entre as palavras (copiei de uma gramática a procura de uma luz,
mas a treva ficou ainda maior e lembrei melhor o que queria dizer com ojeriza).
Continuando a explicação: Perdi um ano todo da minha vida (o ano era 1976)
porque (junto, segundo a regra) não consegui colocar na cachola a tal da
Análise Sintática. Bom, a indeterminação do sujeito faz parte da análise
sintática, mas também saber se ele é ou não determinado é tão inútil quanto
saber quantos grãos de arroz consumi no almoço. A função da Língua não é
comunicar? Que serventia tem saber ainda mais, esmiuçar a frase, dar nomes aos
que já nome tem, ou seja, adjetivar pedaço por pedaço uma oração? Fará isso com
que alguém escreva, ou se comunique, melhor ou pior? Fiz essas perguntas em 76,
sorte que para mim mesmo e pra professora Gládis que teve seu Chevette 75 rosa
depredado por mim (foram só dois pneus furados). Sem saber por que, repeti a
sexta série e não peguei nem exame, rodei por média. Naquela época andava
empolgado com a matemática e física, queria ser matemático ou físico (óbvio),
quem sabe engenheiro. E o tal Portuga me dizendo“pois, pois”...
Não
é necessário “analisar” o que se passava nessa cabeçorra; achava infinitamente
mais inútil o que qualifico hoje como inútil, um conhecimento que só encontra
utilidade na cabeça dos exibidos e entediados de plantão, como um músico indo e
vindo nas escalas musicais sem “tocar nada”.
-
Toca uma música, pombas! E o cara faz que não é com ele...
Depois
meu trauma esvaneceu-se, desiludi-me com as “exatas”, me apaixonei pela língua
pátria e comecei a escrever; só não escrevo melhor porque continuo achando que
essa coisa de “análise” é coisa pra maluco. Até o Drummond concorda comigo!
Abril
/ 2011.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O PODER DA LITERATURA
José Castello
Em um século dominado pelo virtual e pelo instantâneo, que poder resta à
literatura? Ao contrário das imagens, que nos jogam para a fora e para as superfícies, a literatura nos joga para dentro. Ao contrário da realidade virtual, que é compartilhada e se baseia na interação, a literatura é um ato solitário, nos nos aprisiona na introspecção.
Ao contrário do mundo instantâneo em que vivemos, dominado pelo "tempo real" e pela rapidez, a literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo, ignora o imediato e as circunstâncias.
Vivemos em um mundo dominado pelas respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se limite a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura, portanto, parece caminhar na contramão do contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se reproduz e acelera, a literatura se contrai, pendindo que paremos para um mergulho "sem resultados" em nosso próprio interior. Sim: a literatura - no sentido prático - é inútil. Mas ela apenas parece inútil.
A literatura não serve para nada - é o que se pensa. A indústria editorial tende a reduzi-la a um entretenimento para a beira de piscinas e as salas de espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade _ em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva _ transforma a literatura em uma "especialidade", destinada apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua potência. Tanto quando é vista como "distração", quanto quando é vista como "objeto de estudos", a literatura perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e desestabilizar a existência.
Contudo, desde os gregos, a literatura conserva um poder que não é de mais ninguém. Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso espírito. Somos seres "normais", como nos orgulhamos de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões. Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo. Acreditamos que somos donos de nós mesmos!
Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice _e você verá que rombo se abre em seu espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que - a literatura desmascara isso - não passa de ilusão. A "realidade " é apenas um pacto que fazmos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.
É nas frestas do real, como uma erva daninha, que a literatura nasce. A literatura não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas, desagradáveis e perturbadoras. Leia "Crime e Castigo", "O Castelo", o "Livro do Desassossego", ou "A Paixão segundo GH". Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem.
A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas, então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem mo poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia.
A literatura não tem o poder dos mísseis, dos exércitos e das grandes redes de informação. Seu poder é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não para fora, ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da leitura, que escândalos, que estragos, mas também que descobertas e que surpresas ela pode deflagrar!
Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura.
*José Guimarães Castello Branco é um escritor, jornalista e crítico literário brasileiro.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Josué Guimarães no Palavra Escrita
Recentemente admiti que tenho um medo louco de morrer sozinho e anônimo. Mas como a companheira do medo é a covardia, revelei a fobia para apenas três amigos, distintos e, convenientemente, distantes. Esse medo, creio eu, nasceu comigo. E formou-se na imagem de um dos poucos romances que li ao final da década de 80. Como já disse em outras publicações, sempre fui e sempre serei um leitor preguiçoso e afoito. Se tiver em mãos um resumo, lá vou eu por esse atalho. Se ainda usasse o tempo que sobra para mais leitura, ainda vá. Mas ganho tempo ali para ficar de papo pro ar pensando a morte das bezerras. Exceto quando o romance me pega pelas fraquezas que tenho: o amor em sua face estritamente romanesca e os medos. Camilo Mortágua pegou-me pelo medo. Não quero aqui depreciar a obra de Josué Guimarães alegando um motivo tão fútil; o romance é excelente. A história ainda acontece no bairro onde morava e os locais descritos no enredo são os mesmos que conheci durante minha infância. O resumo do romance está logo abaixo para aqueles que quiserem lê-lo, cabe explicar contudo que Mortágua era um velho e morava em uma pensão no bairro Azenha, em Porto Alegre. Frequentava o cinema do bairro (Roma), onde vê, projetado na tela, a história de sua família. E lá, quando o filme de sua vida acaba, acaba também a sua vida. Onde entra a minha fobia? Na descrição precisa do quarto de pensão onde morava, banheiro no corredor, rotina diária de tomar café no quarto, dar as migalhas de pão aos pardais que frequentavam sua janela que tinha como vista os fundos dos edifícios vizinhos. Para dizer a verdade, talvez haja aqui alguns equívocos nos detalhes que possa ter adicionado ao longo dos anos, coisas emprestadas de outros romances, coisas criadas sem ter-me dado conta. Mas a razão de ter eleito esse romance para materializar meu medo está estampada em Camilo Mortágua. E por causa dele, hoje quem não conhecia, passa a saber da existência de um dos romances mais importantes da literatura gaúcha escrito pelo saudoso Josué.
CAMILO MORTÁGUA
(Resumo do Livro)
Romance
publicado em 1980, Camilo Mortágua representa, na obra de Josué Guimarães,a
culminância de uma trajetória e, ao mesmo tempo, o retrospecto dos resultados
alcançados. A incorporação do trajeto histórico do Estado coincide com a evolução
da intriga, sobretudo com a biografia do herói que dá nome à obra. Nascido ao
final do século 19, o protagonista vem a falecer na primeira semana de abril de
1964. Com isto, o autor introduz no fluxo narrativa setenta anos da história
sul-rio-grandense; e, ainda que a família Mortágua, indiferente passe ao largo
dos fenômenos externos, emergem ao fundo as notícias relativas às guerras
européias, revoluções brasileiras, o suicídio de Vargas, enfim, os fatos mais
marcantes do século 20, misturados a trivialidades domésticas, mudanças nas
modas, novos costumes, etc.
Assim
sendo, se a história não é o eixo que suporta o transcurso dos acontecimentos,
ela ali está, e sua fusão a fatos miúdos do cotidiano, porém igualmente
relevantes segundo o modus vivendi dos Mortágua, reforça a evidência de que o
alheamento crescente desses significa seu paulatino deslocamento do poder -
econômico e social. Os setenta anos ocupados pela biografia de Camilo
correspondem ao processo de desagregação da classe dominante sulina de extração
rural. Transferidos para um centro urbano mais desenvolvido, a dilapidação das
propriedades dos Mortágua deve-se, de um lado,, à sua leviandade e falta de
tino gerencial; em outras palavras, decorre de sua incapacidade de adaptação ao
novo cenário, em que avulta a mentalidade empresarial burguesa. De outro lado,
são os acontecimentos históricos que empurram o País na direção da atividade
mercantil e industrial e isto, a família, envolvida com seus amores e culpas,
doenças e mortes sucessivas, não pode alcançar e compreender. O romance se
enxerta à temática da decadência. Camilo Mortágua, o protagonista, revê a
história de sua vida ao ir ao cinema. Na tela, em vez de Cleópatra, a Rainha de
César, o filme mostra a trajetória da decadência da família de Camilo. Eis o
recurso narrativo utilizado pelo escritor.
Como
contexto histórico, Josué utiliza os sofridos acontecimentos do golpe de 64. A
história se passa em Porto Alegre, recuperando o bairro da Azenha, a avenida
Independência, o parque Farroupilha, a avenida Osvaldo Aranha, a avenida João
Pessoa, a Faculdade de Direito, a Santa Casa de Misericórdia, a Igreja da
Conceição, etc. Nascido ao final do século XIX, Camilo Mortágua morre na
primeira semana de abril de 1964, fornecendo as coordenadas temporais que
facultam a introdução, no fluxo narrativo, de setenta anos da história sulina.
Os setenta anos de Camilo assentam-se numa seqüência narrativa dividida entre a
moldura - os cinco primeiros dias do mês de abril de 1964, durante os quais ocorrem
simultaneamente o golpe político e militar contra o governo constituído e a
revisão da biografia de Camilo - e a intriga propriamente dita. Esta apresenta
cronologicamente a vida do herói, cindida em três fases: a infância e
juventude, quando a família vive seu apogeu irresponsável, na primeira quadra
do século; a maturidade, durante a qual ele restaura o poderio econômico do clã
através da incursão no comércio e indústria porto-alegrenses; a velhice, quando
ocorre a decadência final, já na segunda metade do século.
Estes
setenta anos, que explicitam os temas descritos, mostram-se, no decorrer do
relato, embutidos em três noites, de modo que, na rapidez do écran, Camilo
assiste à sucessiva e galopante desagregação de sua existência e de sua
família, o que culmina numa morte inglória e quase anônima, na escuridão de um
cinema de bairro. Em outras palavras, todo o largo espectro da vida do herói
cabe inteiramente na semana de abril, durante a qual se dão o golpe militar e a
consolidação, no poder público, de seus líderes. Camilo, mais uma vez,
mantém-se alheio ao evento histórico, mas isso não significa que não faça a
parte dele. Pelo contrário, como se encaixa em seu começo, acaba por
imprimir-se neste princípio, vindo a demonstrar como o movimento serviu para
reavivar seres como ele, para a seguir, acelerar seu passamento. Este fato é
que dá sentido à moldura do romance, sem o qual não se faria a transferência
para o presente, assinalado este pela continuidade dos acontecimentos
desencadeados na semana em que é morto o protagonista.
Situando a narrativa no período
crucial em que se inaugura uma nova época da história nacional, o escritor o
traduz como um rito de passagem, que exige, para sua efetivação, um ato
propiciatório - a morte de Camilo. Por isso, condensa nele toda uma aventura
humana fadada ao sacrifício e revela a oportunidade de sua consumação. Nesta
medida, se o livro se propõe a reconstituir um passado para diagnosticar a
deterioração gradual de um grupo que exerceu um domínio inquestionável no Sul,
ajustando as peculiaridades do romance histórico à inclinação temática da
produção literária de Josué Guimarães, ele ainda se projeta para a atualidade
do leitor, lançando-lhe a indagação, sempre relevante, a respeito da
permanência ou modificação das circunstâncias que suscitaram a imolação de
Camilo Mortágua, no momento em que nada mais tinha a oferecer à existência.
Assinar:
Postagens (Atom)

